11 de julho de 2026
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Quarta frota reativada - mais um passo da escalada bélica na AL


| Tempo de leitura: 3 min

O dia 12 de julho de 2008 foi marcado por mais um episódio da escalada bélica na América Latina. Depois de quase 60 anos, os Estados Unidos reativaram a quarta frota, responsável pelo patrulhamento dos mares da América Latina.

A quarta frota norte-americana nasceu em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial. Na costa brasileira, ela foi responsável pelo afundamento de 15 submarinos alemães e um italiano durante aquele período belicoso. Em 1950, com o fim da guerra e com os interesses yankees desviados para onde estava o ouro negro, a quarta frota foi desativada. Qual seria, então, o motivo de sua reativação? Em nossa reunião ordinária do Parlamento do Mercosul, ocorrida no final de junho em San Miguel de Tucuman (Argentina), proferi contundente discurso para os parlamentares do bloco, enumerando algumas hipóteses e chamando atenção para essa indesejável escalada bélica que nosso continente presencia.

O motivo seria a guinada para a esquerda no sul do continente americano, unindo governos que insinuam um novo modelo regional com mais autonomia, conflitando com os interesses dos nossos irmãos mais ao norte? Lula (Brasil), Bachelet (Chile), Rafael Correa (Equador), Evo Morales (Bolívia), Hugo Chavez (Venezuela), Cristina Kirchner (Argentina), Tabare Vazquez (Uruguai) e, recentemente, Fernando Lugo (Paraguai).

Seria a perda de bases militares no Panamá (Albrook e Howard) e Equador (Manta)? Não custa recordar que Albrook foi fundamental para a invasão norte-americana do Panamá em 1989. E Manta deverá ser devolvida em 2009 por decisão da Assembléia Constituinte do Equador. Com a eleição de Lugo no Paraguai, não será surpresa se pedirem para os yankees desocuparem o aeroporto Mariscal Estigarribia, que hoje funciona como base militar.

Ou seria o aumento da importância dos recursos naturais que possuímos? A nossa água doce, abundante tanto na superfície quanto no subsolo, além de outros minerais; os biocombustíveis, única alternativa disponível hoje, em escala, para frear o consumo de petróleo; a descoberta de grandes reservas de petróleo no litoral brasileiro (o Brasil deverá subir da 24.ª para a 9.ª posição no ranking das maiores reservas de petróleo no mundo); a crise dos alimentos e a extensa área agricultável do país.

A alegação dos norte-americanos, fazendo o contraponto, é que a quarta frota vem para oferecer assistência humanitária, ajudar em desastres naturais e participar de operações antidrogas. Então porque seu comandante é um militar que chefiava o Comando de Táticas Especiais de Guerra Naval e que fez carreira no grupo Seal, junto com homens especializados em operações clandestinas e que participou da preparação das missões que invadiram o Iraque e o Afeganistão?

Alegam ainda, que a maior embarcação é um navio-hospital, e que, diferente das outras frotas, não possuirá navios destacados especificamente para o local. Ou seja, seu comandante poderá escalar quantas embarcações e armas quiser, no momento que achar necessário.

A verdade é que os Estados Unidos têm um retrospecto intrigante quanto ao envolvimento em operações contra forças de “esquerda” na América Latina. Só para ficarmos em exemplos recentes, citemos o golpe militar na Venezuela em 2002 e o ataque da Colômbia ao território equatoriano em março de 2008.

Toda ação tem uma reação. Assim como o unilateralismo de Bush abriu espaço para o surgimento de Chavez, a quarta frota incita o reaparelhamento das forças armadas dos países da América do Sul.

Votamos em Montevidéu, em julho passado, a criação de um Conselho de Segurança da América do Sul, procurando envolver todos os países do continente. Penso que isto irá intensificar o comércio de armas e equipamentos de defesa entre os países da região. É dinheiro que deixará de ser investido em setores essenciais que poderiam sinalizariam um horizonte mais pacífico e de mais justiça social em nosso continente. Uma pena.

O autor, José Paulo Toffano, é deputado federal, secretário nacional de formação do Partido Verde, presidente da comissão de meio ambiente, desenvolvimento regional sustentável, saúde, turismo e ordenamento territorial do Parlamento do Mercosul e vice-líder do Partido Verde na Câmara dos Deputados