Aos 20 anos de idade, o bauruense Ricardo (ele não quis fornecer o sobrenome) carrega consigo um currículo de fazer inveja a muitos “bandidos profissionais”. Cometeu seu primeiro crime (furtou uma casa na zona oeste) quando tinha 15 anos. Dois anos mais tarde, armado com um revólver calibre 38, roubou um carro na região central da cidade.
Depois de adulto, assaltou ônibus, casas, até finalmente ser preso. Atualmente, trabalhando como servente de pedreiro, afirma que aprendeu a dar valor às coisas conquistadas com o suor do próprio rosto.
Mas bandido também não sua? Como sua... “Na cadeia, o ritmo é louco demais”. Favorável à redução da maioridade penal, Ricardo não está certo de que teria conseguido se regenerar mais cedo, caso tivesse ido para um presídio quando ainda era um adolescente problema.
“Naquele tempo, acho que só me matando para eu parar de aprontar”, afirma o rapaz, que estudou apenas até a 6.ª série e hoje faz supletivo para tentar concluir o ensino fundamental. Acompanhe, a seguir, trechos da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade, na última semana.
Jornal da Cidade - Como você entrou para a vida do crime?
Ricardo - Foi aos 15 anos. Invadi uma casa, no meu bairro, levei televisão, rádio, DVD. Acabei sendo “preso” e condenado a prestar serviços comunitários.
JC - Você ia à escola nessa época?
Ricardo - Quando eu era garoto, costumava dar muito trabalho na escola. Repeti de ano (sic), acabei sendo expulso várias vezes, até que resolvi largar a escola, quando tinha 16 anos de idade.
JC - Que tipo de serviço você teve de prestar à comunidade?
Ricardo - Nem lembro. Para te falar a verdade, eu nem cheguei a cumprir a pena.
JC - Mas não havia uma autoridade para te acompanhar no cumprimento da medida educativa?
Ricardo - Ele mandava carta lá em casa, avisando que eu não poderia faltar, só que eu nem dava bola.
JC - Essa punição serviu para te regenerar?
Ricardo - Não, senão eu não teria cometido outros roubos (risos).
JC - Você chegou a ser levado outras vezes?
Ricardo - Sim. Tentei invadir uma casa, aos 16 anos de idade, só que fui pego pela polícia. Passei 45 dias “preso”, e acabei fugindo antes de ser julgado. Daí, um ano depois, roubei um carro no Centro.
JC - Havia pessoas no veículo?
Ricardo - Três ocupantes. Eu estava armado com um 38, mandei que eles descessem e fugi acompanhado de um colega, que dirigiu o carro para mim.
JC - Que carro era?
Ricardo - Um Pálio. Passei adiante por R$ 3.500,00. Dessa vez a polícia não conseguiu me pegar.
JC - Quando você resolveu parar com a vida de crime?
Ricardo - Eu continuei assaltando, usando drogas, até que, um dia, acabei sendo preso e peguei um bom tempo de cadeia (quase dois anos). Foi daí que resolvi parar de roubar.
JC - O que a cadeia tinha de tão ruim?
Ricardo - O ritmo lá é muito doido. Não desejo uma vida daquelas para ninguém.
JC - Você é contra ou a favor da redução da maioridade penal?
Ricardo - Acho que tem de dar tratamento igual para todo mundo. Se o moleque roubou, tem de pagar por aquilo que fez.
JC - Caso tivesse sido preso quando ainda era adolescente, você acha que teria conseguido se recuperar mais cedo?
Ricardo - Duvido muito. Naquele tempo, só me matando para eu parar de aprontar. Eu era moleque, e achava que nada de ruim iria acontecer para mim. Conselho bom foi o que não faltou para mim. Meu pai e minha mãe sempre me alertaram. O problema é que nunca passou pela minha cabeça que algum dia eu poderia ir parar numa prisão.