08 de julho de 2026
Articulistas

Quanto setembro vier...


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São quinhentos anos. No começo eram os índios, depois os degredados, os perseguidos religiosos ou políticos, os holandeses, e finalmente D. João. Ele chegou ao Brasil em 1808. Assim, quando setembro vier, vai-se comemorar os duzentos anos da instalação da corte portuguesa no país. Pensei que poderia escrever sobre isso e comentei com meu marido. De maneira pragmática, respondeu-me: o volume de informações e livros é grande. Ofereceu material. Recusei, pois acredito saber o suficiente para rabiscar essas linhas. Eu não aprecio Bonaparte, embora a antipatia seja gratuita, ele nunca me destratou, posso garantir. Ele acalentou o sonho de unir a Europa em um só estado, como Carlos Magno, movido pela força militar e pelo poder das idéias. Quase conseguiu. Tinha em mãos a área do Mediterrâneo ao Báltico. Esse pode ser o motivo. É um tanto irracional, pois adoro Carlos Magno. Enfim, em 1808, o pequeno grande homem poderia ser classificado como dono do mundo, embora os ingleses continuassem senhores dos mares.

Enquanto isso em Portugal reinava como regente D. João, substituindo sua mãe, a rainha louca. Não é considerado um estadista, mas tomou a decisão certa na hora certa! Fugir para o Brasil. João Maria José Francisco Xavier de Paula Luis Antonio Domingos Rafael de Bragança tinha mais problemas do que nomes. A dor de cabeça do momento era a perseguição de Bonaparte querendo anexar Portugal ao seu império, fazendo-o lembrar-se da traição dos sogros espanhóis que se juntaram à França e de Carlota conspirando o tempo todo contra ele. Cansado da guerra sem nunca ter pisado em um campo de batalha, e com o inimigo à vista, decidiu transferir a corte para o Rio de Janeiro, contando para isso com o apoio da Inglaterra. Os tablóides se deliciaram! Eles fizeram piadas e caricaturas de um frustrado Napoleão, furioso por perder sua presa na última hora. O atropelo da partida mostrou quanto o regente estava dividido entre a França e a Inglaterra. A gota d’água foi a carta de Bonaparte avisando que se o país não fechasse seus portos aos ingleses até setembro, o exército francês marcharia sobre Portugal. Era chegada à hora e ele não vacilou. Saiu de Lisboa, escoltado por fragatas inglesas.

Na parada da Bahia, foi decretada a abertura do comércio, para que a colônia encontrasse seu lugar na ordem econômica internacional. O mundo fervilhava com a Declaração dos Direitos do Homem, a Inglaterra parlamentarista, os Estados Unidos da América independente pregando liberdade e igualdade, e os avanços tecnológicos tornando possível a produção de bens de consumo para a classe média.

A importância da vinda da família real para o Brasil foi grande, pois como num passe de mágica ganhou liberdade de comercializar, teve sua Constituição, o ensino superior aportou aqui através da Escola Nacional de Belas Artes e os brasileiros perceberam que a sua independência viria mais dia, menos dia. Essa história vai continuar a ser discutida nos próximos duzentos anos.

A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC