11 de julho de 2026
Cultura

‘Plantar, ter filho e escrever um livro’

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 5 min

Diz a sabedoria popular que só se tem uma vida completa quando se planta uma árvore, tem um filho e se escreve um livro. Acredito que plantar uma árvore seja, de longe, a mais fácil das tarefas. Um filho, digamos, exige um pouco mais de planejamento. Mas, e um livro?

Embora as características do blog concedam muitas vantagens aos seus usuários, como a visibilidade, a possibilidade de treino e a liberdade de criação, seria ingênuo não pensar que o que esses jovens escritores querem mesmo é ver seu talento materializado no papel.

“Todos os autores que estão começando agora têm essa vontade. A idéia do papel físico ali, ao alcance da sua mão, torna-se, praticamente, um elemento sagrado”, confessa Thiago Augusto Côrrea, 23 anos, estudante do quarto ano de letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.

Tímido, Augusto começou a se dedicar à literatura na adolescência, como forma de expressar, por meio de textos, aquilo que não conseguia dizer às pessoas. Até aí, nada demais. Milhões de jovens, nessa fase da vida, desde os antigos diários escondidos e trancafiados à chave aos virtuais escancarados de agora, fazem da escrita um meio de extravasar seus sentimentos.

Boa parte desses jovens coloca um ponto final nessa prática assim que também acaba a adolescência. Para outros, porém, desconfiados da existência de algum talento, a prática permanece. E é nesse time que joga Augusto. “Muitos escritores usam o recurso literário para poder ser aquilo que eles não são. Assim, o relacionamento que eu não conseguia estabelecer com as pessoas era transferido para os textos. A partir de então, eu comecei a perceber que tinha habilidade para escrever e, hoje, a literatura é minha paixão”, conta o estudante.

Hoje, mesmo sem ter plantado nenhuma árvore nem ainda ter tido filhos, o jovem parte para a primeira das três tarefas “exigidas pela vida”. Augusto, além do estudo da obra da poeta Hilda Hilst para seu trabalho de conclusão de curso, dedica-se à seleção de seus contos na tentativa de montar um livro, o primeiro. Os textos que deseja ver no papel são fruto, é claro, de suas publicações em blogs: “Três Vozes” (3vozes.blogspot.com) e “Quatro Patacas” (quatro patacas.blogspot.com), ambos coletivos.

O primeiro, o estudante dividia com mais dois amigos distantes: enquanto ele produzia em Bauru, Rafael Rodrigues e Eduardo Leite postavam de Feira de Santa (BA) e João Pessoa (PB), respectivamente. Com sua ida para Araraquara, Augusto resolveu montar outro blog literário, com os amigos da universidade, e dar uma pausa com o “Três Vozes”, o qual o último post, o de uma despedida temporária, data o dia 28 de dezembro de 2006.

O “Quatro Patacas”, existente há um ano, é atualizado a cada dois dias por um sistema de revezamento. “No total, cada autor acaba fazendo uma média de quatro textos por mês. A idéia é que o blog seja um espaço de publicações de contos e crônicas, que variam a medida do estilo de cada um”, explica Augusto.

A insistência em fazer blogs coletivos vem da aposta de que, dessa forma, a visibilidade pode ser ainda maior. Aliás, a primeira pergunta rebatida por Augusto à reportagem foi: “O endereço do blog vai ser divulgado”, já tentando “vender o seu peixe”.

“Sempre fiz os blogs em parcerias com amigos. A gente sempre acreditou que a força de três, quatro novos escritores chamaria mais atenção do que uma pessoa só”, diz alimentando o sonho de ser publicado por uma grande editora.

Além de “Quatro Patacas”, Augusto e os outros três amigos - Arthur Malaspina, Leandro Durazzo e Vinício dos Santos - mantêm ainda, paralelamente, suas “sagas” pessoais: “O que o Dr. House Diria?” (todomundomente.blogspot.com), “Han Atirou Primeiro” (hanatirouprimeiro.blogspot.com), “Mísera Mesa” (miseramesa.blogspot.com) e “O Jardim dos Gatos Teimosos” (ojardimdosgatosteimosos.blogspot.com), respectivamente.

Primeiros Passos

Para os que quiserem escrever e bem, parece não haver como escapar de uma receita antiga: ler, e muito. “Paralela à prática da escrita, os aspirantes a escritores não devem abandonar o hábito da leitura”, aconselha Glória Maria Palma, professora das disciplinas de língua portuguesa e literatura brasileira e portuguesa da Universidade do Sagrado Coração (USC).

A dica soa óbvia, mas o que acontece é que, com o crescimento da própria produção literária, os jovens escritores, muitas vezes, passam a considerar desnecessário o conhecimento de obras alheias. “Nenhum jovem que aspire tornar-se um escritor conhecido pode ser ingênuo. É fundamental para o escritor contemporâneo que ele alimente-se dos bons textos para, por meio da sua sensibilidade, desenvolver um estilo próprio. Quem não tem conhecimento dos estilos existentes, como poderá construir o seu?”, alerta a professora.

Para Glória, uma boa maneira para o exercício da escrita são os contos e as crônicas. “São textos menores, por isso mais fáceis para quem está começando”, orienta. Além da prática e da leitura, a professora acredita ser essencial a atividade de troca que a Internet oferece. “Ela corta caminhos e é um ótimo espaço para se discutir literatura”, completa.

Uma última dica deixada pela professora é a paciência. “A carreira de escritor é um trabalho de cultivo e os jovens são muito ansiosos”, considera. Da reportagem, fica como dica dois endereços eletrônicos que publicam trabalhos de jovens escritores: “Cronópios” (www.cronopios.com.br) e a “Revista Malagueta” (revistamalagueta.com).

O primeiro, é um portal de literatura e arte que publica tanto textos de escritores conhecidos como aceita material dos novos. O “Malagueta” aceita contos, poemas, crônicas, artigos e resenhas, preferencialmente inéditas, tornando-se também um bom lugar para começar a enviar seu material.

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Livro de blog

“Ei, por que a gente não monta um blog?”. Foi com essa pergunta lançada em um bate-papo informal à mesa de um restaurante que as amigas e jornalistas Clarissa Passos, Flávia Pegorin e Viviana Agostinho deram início ao “Garotas que Dizem Ni” (garotasquedizemni.ig.com.br).

O blog, atualizado diariamente, é um espaço onde as “garotas” publicam artigos, crônicas e contos sobre cinema, TV, música, infância, cotidiano, entre outros tantos temas. A partir do sucesso da página, criada em 2003, o blog de Clara, Flá e Vivi tornaram-se mais um exemplo de um trabalho feito na web que ganhou a sua versão em brochura.

“É Impossível Ler um Só - Histórias Para Devorar a Qualquer Hora” reúne 60 textos publicados no blog, entre os favoritos das jornalistas e do público que freqüenta o site.