11 de julho de 2026
Articulistas

O caminhante que não podia andar


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O último dia 24 de agosto marcou o centenário de nascimento de Alberto de Souza. O advogado Arthur Monteiro Neto, num belo texto neste jornal, não deixou a data passar em brancas nuvens. Nos tempos em que a palavra “herói” encontra-se tão banalizada, que até os usineiros da cana - versão moderna dos antigos senhores de engenho - merecem este qualificativo, é bom dizer as coisas como deveriam ser. Alberto de Souza nasceu pobre, morreu pobre e quase desconhecido está. Mas é um dos poucos brasileiros do século passado em quem a ligação com esta palavra não pareceria falsa ou peça de retórica. Ele foi, durante toda a vida, um Herói com agá maiúsculo, muito embora dispensasse tais elogios com meia dúzia de impropérios.

Seu Alberto era magro, alto e tinha os cabelos lisos em permanente desalinho. Um olhar esperto denotava uma inteligência ímpar. Viveu por mais de meio século em uma casinha de madeira, na Vila Industrial, então um bairro afastado. Era sapateiro, desde que veio para Bauru, no final dos anos 1930. Fazia e consertava aquilo que usamos para caminhar. Seu Alberto, quando jovem, caminhou mais do que a maioria das pessoas. Percorreu a pé cerca de 24 mil quilômetros pelo interior do Brasil. Em dois anos andou por uma vida. Seu Alberto integrou a lendária Coluna Prestes, uma campanha militar para mudar o país. Perseguida pelo exército e por jagunços de fazendeiros, jamais foi derrotada militarmente. Eram tempos muito duros os do governo ditatorial de Arthur Bernardes, entre 1925 e 1927.

Mas aos 27 anos de idade fizeram daquele rapaz um inválido da cintura para baixo. Sua história faz parte da brutalidade com que as classes dominantes brasileiras sempre trataram o povo. Dali em diante, passou a locomover-se com extrema agilidade, com o auxílio de duas cadeiras de palhinha velhas, passando de uma para outra. Inquieto e inconformado, ele reinventou um modo de locomoção.

Alberto de Souza era um caipira de sangue quente. Nascido em Itapira, cresceu, viveu e envelheceu rebelde. Não era um rebelde das palavras, mas um missionário da ação. Mal completara 16 anos e envolveu-se na Revolução Paulista de 1924. Pouco se fala deste episódio, que teve marcada participação dos setores empobrecidos da população. Ali o jovem interiorano tomou gosto pela luta. Conheceu o tenente João Cabanas e engajou-se em sua legião de soldados que se embrenhou pelo interior paulista e chegou até o Paraná.

Foi assim que travou contato com um capitão de artilharia franzino e despachado. Era Luiz Carlos Prestes, que buscava voluntários para sua jornada. Ao se tornar comunista, quando a Coluna chegou à Bolívia, seu Alberto faria da opção política um molde para sua existência. Não pensou duas vezes ao se engajar nas articulações do levante de 1935 contra o governo Vargas, em São Paulo, na Aliança Nacional Libertadora. A luta foi esmagada com selvageria. Prestes perdeu a mulher, Olga Benário, mandada a um campo de concentração nazista, na Alemanha. Toda a cúpula do Partido Comunista foi jogada em masmorras por uma década. Alberto foi mandado para o presídio político da Vila Maria Zélia, na zona leste de São Paulo, onde foi barbaramente torturado.

Logo nos primeiros dias de cárcere, foi atacado por trás, por um carcereiro, com uma coronha de fuzil na base da coluna cervical. Desmaiou. Quando acordou, estava jogado em um porão, inundado até os joelhos. À noite baixavam o nível da água, para que pudesse dormir. As refeições resumiam-se a pedaços de pão atirados no líquido onde também eram feitas todas as necessidades.

O moço de Itapira saiu de lá, um mês depois, mais morto do que vivo. A marca em seu corpo foi terrível. Não tinha mais o movimento das pernas. Alberto jamais se arrependeu da luta ou de suas ações. Ao contrário, continuou na ativa. Veio para Bauru, onde se casou e aprendeu as artes e ofícios de trabalhar o couro. À noite era secretário de finanças do comitê regional do PCB.

Após o golpe de 1964, a perseguição aos comunistas fez com que perdesse contato com vários companheiros. Mesmo assim, um rádio de ondas curtas o mantinha informado dos ares do mundo. E a avidez de leitura o fazia percorrer as páginas de Darwin, Hegel, Marx, Lênin, Florestan Fernandes e o que havia de melhor nas ciências sociais e políticas. Aos amigos pedia sempre mais e mais livros.

Uma das grandes alegrias de seus últimos anos aconteceu durante o comício das Diretas Já, em Bauru. Várias lideranças nacionais vieram à cidade, naquela memorável campanha. Uma delas em especial fez questão de visitá-lo. O experiente comunista quase perdeu a fala quando viu seu antigo comandante entrar pela porta da casa, acompanhado de inúmeros amigos. Quase sessenta anos depois, Prestes viera ver seu companheiro.

Seu Alberto morreu no início de 1991. Não acreditava em vida após a morte e nas peripécias da metafísica. Tinha fé nas pessoas, em seus camaradas, em “gente nossa”, como dizia. Mas o velho inconformado segue vivo, vivíssimo. Um pouco dele está no coração de todo aquele que não se contenta com a vida como ela é. Isso o faz eterno.

O autor, Gilberto Maringoni, é jornalista, historiador, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - Ipea - e autor de “A Venezuela que se inventa, poder petróleo e intriga nos tempos de Chávez” - Ed. Perseu Abramo, 2004