O atendimento de urgência e emergência de Bauru está “infartando”. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) recolhe o paciente, leva para o Pronto-Socorro Central, que estabiliza o quadro de saúde da vítima. Tudo feito com muita agilidade, mas a partir daí o andamento tende a ficar lento por causa da barreira imposta pela falta de vagas nos hospitais (Estadual e de Base), para onde os pacientes precisam ser encaminhados para dar continuidade ao tratamento.
É como se o serviço de urgência e emergência do município estivesse sofrendo um ataque cardíaco. O infarto do miocárdio ocorre quando a circulação de sangue em uma parte do músculo cardíaco é reduzido ou cortado totalmente. Isso acontece quando uma artéria coronária está contraída ou obstruída, parcial ou totalmente.
Esse é o quadro do serviço de urgência e emergência em Bauru, cujo atendimento, em geral, é bom, mas que é barrado a partir do Pronto-Socorro. A artéria coronária não fechou totalmente, mas o fluxo de paciente, em alguns momentos, é lento. Se essa patologia não for tratada com a rapidez que o quadro exige, o “paciente” (demanda do cidadão) poderá morrer ou ficar com graves seqüelas em pouco tempo.
O Ministério Público tentou intervir e quis obrigar uma intervenção cirúrgica para desobstruir a veia do sistema de urgência e emergência do município e assim aumentar o fluxo de pacientes, mas o trabalho foi suspenso por ordem da Justiça e a pedido do Governo do Estado.
Estudo realizado pelo Comitê Gestor de Urgência e Emergência do município detectou que o “estrangulamento da coronária” está na internação do paciente. Faltam vagas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de Bauru para atender adequadamente a demanda. Com isso, o fluxo de pacientes do Pronto-Socorro Central para os dois principais hospitais públicos da cidade - o Hospital de Base e o Hospital Estadual -, em determinadas épocas, demora mais do que deveria.
Na opinião do médico José Eduardo Passos, membro do comitê e coordenador geral do Samu, a internação do paciente tem de ser feita o mais rápido possível. Segundo ele, quanto mais rápido, menores serão as seqüelas e, conseqüentemente, menor será o prejuízo para o paciente e também para o Estado.
No ano passado, o promotor Fernando Masseli Helene ingressou com ação civil pública pedindo um aumento no número de vagas em leitos normais e em UTI, tanto no Hospital de Base quanto no Hospital Estadual.
No quesito vaga em UTI, a Justiça local concedeu liminar obrigando o governo do Estado a realizar as internações em até 48 horas a partir do registro dos pedidos pelas unidades municipais de saúde. Mas o governo do Estado recorreu e conseguiu derrubar a liminar junto ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ).
Para o diretor executivo do Hospital Estadual, Emílio Carlos Curcelli, não se cria leitos por decreto. Segundo ele, Bauru tem um número de leitos acima do ideal preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O problema, segundo ele, está na falta de atendimento e acompanhamento dos pacientes na rede básica. E isso eleva o índice de reinternação. Mesmo assim, o diretor garante que o Hospital Estadual tem plenas condições de atender os pacientes graves em até 48 horas.
No entanto, ele admite que em determinados momentos o volume de atendimentos aumenta e a espera pode ser maior. Mesmo que o paciente tenha de esperar vaga em uma maca, se ele for bem atendido pela equipe médica, o tratamento não é prejudicado, na avaliação de Curcelli.
Apesar da dificuldade que ainda existe em conseguir vagas em UTI, Carlos Macharelli, diretor do Departamento Regional de Saúde (DRS-6), diz que a situação melhorou nos últimos meses. Segundo ele, desde novembro passado foram criadas nove vagas de UTI no Hospital Estadual de Promissão e cinco no Hospital de Base de Bauru.
De acordo com ele, as vagas de Promissão ajudaram indiretamente porque ao invés de encaminhar pacientes daquela região para Bauru, eles ficam em Promissão.
Macharelli disse ainda que deve ser colocada em prática a partir do próximo mês uma proposta do governo estadual para dar mais rotatividade nos leitos de UTI. Segundo ele, há casos em que os pacientes não precisam necessariamente ficar em UTI. Quem respira por aparelhos, por exemplo, poderia ficar em um hospital que não tem UTI.
Pela proposta, os médicos e enfermeiros desses hospitais seriam treinados para trabalhar com o respirador e o paciente seria mandado para lá, liberando assim vaga nas UTIs de Bauru.
O próprio diretor admite que encontrar leitos vazios é quase impossível, mas afirma que cerca de 94% dos pacientes que precisam de vaga conseguem em menos de 24 horas.
Segundo Passos, tanto o Base quanto o Estadual estão bem equipados para receber os pacientes de urgência e emergência. No entanto, o Base atende mais pacientes porque tem uma ligação quase que direta com o pronto-socorro, o que torna o atendimento mais rápido. Já o Estadual trabalha com o gerenciamento de vagas. Antes da internação é preciso consultar esse serviço para saber se é possível ou não receber o paciente.