Diante da pergunta “e se você morrer?” a resposta vem com uma grande naturalidade: “se eu morrer, eu irei descansar ou vai nascer uma outra pessoa melhor ou pior”. Esta poderia ser uma resposta de uma pessoa de cerca de 90 anos, mas não é. A resposta vem da mente de uma criança, um menino que está totalmente envolvido na narcocultura. Como esse menino, vários outros estão espalhados por todo o País e são instrumentalizados desde cedo por uma indústria mortífera alimentada pela própria sociedade de consumo.
“Falcão - Meninos do Tráfico” de MV Bill e Celso Athayde é uma obra viva entre as grandes produções cinematográficas da contemporaneidade. O filme retrata o cotidiano de jovens de diversas idades que trabalham para o narcotráfico deixando que somente eles falem. Na verdade, o filme oferece um encontro inesquecível que nunca aconteceria. Um encontro entre nós que vivemos integrados no sistema e aqueles que vivem em outra civilização, mas que, ao mesmo tempo, pertencem à nossa sociedade e são sustentados por ela. Além do documentário, o DVD traz ainda uma entrevista impressionante com MV Bill e três videoclipes.
Diante de todo o material audiovisual, nos questionamos, sim, sobre o sentido da vida, mas, ao mesmo tempo, existe um questionamento mais sutil e que ocupa praticamente todos os momentos da obra cinematográfica: o relacionamento humano entre seus personagens e como estes relacionamentos são construídos, mas simultaneamente como cada relacionamento trans-forma ou deforma o caráter de todos.
Nós poderíamos dizer que, a princípio, o ser humano se desenvolve em uma sociedade através de um processo de adaptação. Desde pequeno a criança se adapta, através de uma aprendizagem informal, a viver em seu meio social e a conviver com seus semelhantes. Este processo inicial de adaptação não significa simplesmente a aprendizagem de regras e valores, mas também a formação e, mais tarde, a transformação de seu próprio caráter. Assim, a criança não somente aprende quais são as “pontes” existentes para o relacionamento entre as pessoas de sua sociedade, mas também como construir outras novas.
Mas algo trágico pode, muitas vezes, acontecer: a criança pode desenvolver um caráter que constrói pontes frágeis e fáceis de serem rompidas, como também um caráter incapaz de construir pontes até consigo mesma. Concretamente podemos, a princípio, distinguir duas formas de adaptação através das quais pontes são construídas: uma adaptação estática e uma adaptação dinâmica. A adaptação estática é aquela que não modifica o caráter da pessoa humana. Por exemplo, o chinês que se muda para o Brasil e é obrigado a deixar de comer com palitinhos não sofrerá uma modificação em seu caráter. Assim, o chinês poderá se adaptar à sociedade brasileira se tornando um corintiano, falando o português e comendo com talheres.
Estas são pontes que farão com que o chinês possa se relacionar com os brasileiros e manter com estes certa convivência. Dependendo da maneira como o processo se desenvolverá, esta adaptação não irá modificar sua personalidade. Por sua vez, a adaptação dinâmica é aquela que causa modificações no caráter do ser humano. Por exemplo, uma criança que possui um pai extremamente severo poderá, para se adaptar à sua família, desenvolver um profundo medo diante da presença paterna. Este medo poderá gerar mais tarde uma personalidade fraca e cheia de receios em relação a outras pessoas ou uma personalidade que possui pavor à submissão ou à subordinação.
Se desejamos construir uma sociedade saudável é necessário refletir sobre as formas de adaptação que modificam profundamente o caráter das pessoas. Parece-me urgente, por exemplo, a reflexão das formas de adaptação que fazem surgir um caráter corrupto e complacente com atitudes que ferem e matam o ser humano ou banalizam as instituições gerando uma cultura de sonegação de impostos, de violência, de construção de um Estado do Narcotráfico dentro de nosso próprio Estado Democrático de Direito. Ao mesmo tempo temos que refletir sobre as formas de adaptação que geram um caráter carente e monstruoso que sofre com a falta de um caloroso relacionamento humano e se acostuma com a eliminação da vida. Em outras palavras, se faz necessário refletir simultaneamente sobre o amor e a honestidade.
Estas duas pontes entre as pessoas parecem ser, hoje em dia, muito procuradas, mas poucos parecem refletir que para construí-las é necessário um caráter que seja capaz de ser justo, de saber dizer não, assumir seus próprios erros e, ao mesmo tempo, aceitar a liberdade alheia.