Atualmente, o cão com leishmaniose não pode ser tratado em território nacional. Uma portaria editada por dois ministérios (da Saúde e da Agricultura) veta em cachorros infectados com o protozoário o uso de medicamentos humanos, até então utilizados por veterinários para evitar a disseminação da doença nos animais. Na prática, eles estão condenados à morte. A eutanásia, mais uma vez, divide opiniões.
Se para o poder público e para médicos ela é necessária, para donos de cães, entidades de defesa animal e parte dos veterinários, pode ser evitada sem prejuízo à saúde pública. A polêmica foi retomada com a edição da portaria 1.426, de julho deste ano. Além de proibir o tratamento de leishmaniose visceral canina com produtos de uso humano, também veda os não-registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Dá margem, portanto, ao ingresso no mercado nacional de tratamentos animais, desde que devidamente autorizados.
“A portaria não proíbe o tratamento de leishmaniose em cães. Se tiver um remédio animal registrado, pode ser usado. Existe uma impossibilidade por não existir no momento algum medicamento aprovado para os cães. Mas se advogados entrarem na Justiça e questionarem a portaria, com certeza os juízes terão posicionamento favorável porque no mundo inteiro se trata a leishmaniose em cães”, afirma José Hermann Schroeder, advogado da organização não-governamental (ONG) Naturae Vitae.
Parasita resistente
A preocupação oficial, no entanto, está em tornar o parasita mais resistente. “Só tem dois tipos de medicamentos que combatem leishmaniose no ser humano. Os veterinários utilizam o mesmo princípio ativo para tratar cães. Como são reservatórios o tempo todo, o cão que sobreviver continuará reservatório. E a leishmânia, qual será? A resistente. Se for transmitida ao ser humano, o tratamento não vai ser muito eficiente”, pondera Flávio Tadeu Salvador, diretor de divisão da Vigilância Sanitária, órgão da Secretaria Municipal de Saúde.
Frente ao exposto, ele defende a eutanásia nestes casos, assim como o infectologista Fernando Monti. “O cachorro tem uma suscetibilidade maior à leishmânia. Tem muita leishmânia na pele, em áreas que são muito sensíveis ao mosquito. Não tem cura parasitológica, nem no homem”, acrescenta o médico. Diverge dele o veterinário Otávio Volpato, para quem sacrificar animais cria uma falsa idéia de que o problema foi resolvido, contexto também muito perigoso.
Enquanto isso, o mosquito palha, transmissor da doença, torna-se coadjuvante, avalia. “Tem que matar o vetor. Olha a quantidade de animais que mataram, mas a leishmaniose continua na cidade”, comenta a vice-presidente da União Internacional de Proteção dos Animais (Uipa), Maria Dolores Barbosa Gomes. Preocupada com o sofrimento animal, ela defende o sacrifício quando o tratamento for apenas prorrogar o sofrimento do cão.
A preocupação dela não é desconsiderada pelos donos de cães, mas a maioria opta pela eutanásia, segundo um veterinário que preferiu o anonimato. Ele deu andamento a apenas um tratamento em Bauru. Já no hospital veterinário da Universidade Paulista (Unip), a orientação é seguir a lei e sacrificar o animal doente. “A medicação utilizada em humanos já era proibida em animais. Não tem medicação só para cães”, conclui o professor e médico veterinário Demétrio Moreno Ferres.