09 de julho de 2026
Articulistas

A era da certeza


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A caminho de Boston, providencialmente desviei-me da rota e fui a Newport. A ilha de veraneio dos biliardários norte-americanos tem pelo menos uma centena de colossais mansões ao longo das praias. Foi lá que Thorsten Veblen (1857-1927) encontrou inspiração para escrever a sua Teoria da Classe Ociosa, até hoje atual. O livro tem como tema central o profundo senso de superioridade que é conferido ao rico por sua fortuna. Mas, para ser devidamente usufruída, essa superioridade precisa ser reconhecida. Por conseguinte, uma grande preocupação dos ricos é a meticulosamente planificada ostentação da riqueza. Mostrar que é ocioso, num mundo onde todos precisam trabalhar. Esbanjar riqueza para ser notado e invejado. Os solares de Newport foram construídos na entrada do século 20, justamente para que o valor de um homem fosse medido através da sua fortuna pessoal. Versalhes perde longe para alguns dos palácios de Newport.

Visitei duas mansões: a The Breakers e a The Marble House, ambas construídas por magnatas da família Vanderbilt. A primeira tem 70 quartos e a segunda, que não fica atrás, foi revestida por quatro mil metros quadrados de mármore branco importado da Itália, com aplicações de ônix e alabastros. Vanderbilt era tão imaginoso como um sanguinário explorador do povo nas suas ferrovias - conta Galbraith em seu livro A era da incerteza. Comprou um castelo de 400 anos na França só para transferir o teto trabalhado, para adornar a sala principal da mansão. Gastou 10 milhões de dólares, à época, para casar a filha com o duque de Marlborough. Livrou a família inglesa da bancarrota e das goteiras do Castelo de Blenheim, onde nasceu Churchill, em troca de um lugar na aristocracia. Ao mesmo tempo Vanderbilt deixava de dar manutenção à via permanente da sua ferrovia para otimizar lucros. Havia acidentes constantes e os juízes, comprados, barravam os processos indenizatórios.

Muitos dos solares de Newport foram doados à comunidade. Depois de Venblen a repercussão foi tão grande que os ricos decidiram parar de ostentar.Outros casarões da mesma magnitude pertenceram aos Lehmam, Morgan, Linch, Astor, Goldman, Ford, Rockefeller e tantos outros encrencados nesta crise financeira. Naquele tempo predominava a tese ricardiana da “pobreza inevitável”. Deus ama os pobres, e é por isso que Ele fez tantos. Uma das grandes diversões era oferecer banquetes para festejar o aniversário do cachorro. Os ricos se divertiam só de pensar em como o povo reagiria ao ler a esse respeito. As colunas sociais dos grandes jornais dão prazer àqueles que nela são mencionados porque esperam que tais menções possam causar inveja aos “sem coluna social”.

Nada melhorou desde então. No início do século vinte, 1% da população norte-americana detinha 18% da riqueza nacional. Agora, o 1% abocanha 21% do PIB. Barack Obama tem suas razões quando, na sua retórica eleitoral acusa o presidente Bush de ter sido eleito pelos ricos, governar para os ricos e somente para os ricos. Entre 2000 e 2006, o PIB dos EUA teve um incremento de US$ 2 trilhões, ou cerca de 17%. O lucro das grandes empresas cresceu 66%, ou seja, quatro vezes mais que a renda nacional. A renda das famílias pobres, ao contrário, recuou 2,5%. Advertia Milton Friedman que “não existe almoço de graça”. Quem vai pagar é o contribuinte americano e mais o resto do mundo, por ricochete. Um trilhão de dólares para salvar JP Morgan, Merryll Linch e outros tradicionais. No desespero, bancos com nomes de famílias que sempre disputaram a ostentação procuram se fundir. “Sapo não salta por boniteza, mas por precisão” (Guimarães Rosa).

Marx nunca se conformou com essa capacidade do capitalismo de sempre se revivificar nas próprias contradições. Um país liberal como os EUA, santuário do livre mercado, de repente decide ajudar as vítimas da própria ganância, quando a regra sempre foi a da lei da sobrevivência dos mais aptos. O socialismo acabou, mas a profecia de Marx inscrita no seu Manifesto, ainda perdura: “Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são finalmente forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC