Há poucos meses, passando pela Avenida Getúlio Vargas, reparei na fachada de certa loja. Com um pé direito bastante alto, toda de vidro, a arquitetura exibia-se imponente diante de outras construções bem enxovalhadas da região. Mas, além do contraste arquitetônico, típico em qualquer lugar do mundo nos tempos modernos, o que me chamou a atenção foi uma tela que, de tão simples, emanava sofisticação. Era uma gravura. Um fundo branco com riscos de pincel ou lápis. Talvez uns dois metros de comprimento por um de altura. Ficava no hall. Mas, como a fachada era de vidro, da rua podia-se contemplar a obra, que se voltava aos transeuntes como uma vitrina. Nela, duas figuras masculinas de corpos despidos ou, como preferem os menos puritanos, “de corpos sarados e com tudo à mostra”, descansavam uma ao lado da outra.
Evidentemente, nada de novo nisso. Desde a Grécia antiga, diversas obras plásticas apresentam corpos despidos. São esculturas, pinturas, afrescos, fotos, que ocupam museus ou decoram (pasmem) igrejas e santuários no mundo inteiro. Só para citar alguns clássicos exemplos, há a Vênus de Milo, Davi de Michelangelo, Nascimento de Vênus de Bouguereau, O Pensador de Rodin, La Valse de Camille Claudel, Um Nu de Boubat, A origem do mundo de Courbet, Mulher nua na poltrona vermelha de Picasso. Isso sem falar nas representações do texto bíblico feitas por Michelangelo: O pecado original e A Criação de Adão, ambas no teto da capela Sistina, ao lado de outros corpos nus, da mitologia grega.
A lista é longa e a presença do nu artístico, corriqueira. Tão banal quanto pode ser um nu na vitrina. No entanto, dias depois, um fato causou-me estranheza. Passei novamente em frente à mesma loja e constatei que as representações das genitálias das duas distintas e bem comportadas figuras masculinas haviam sido encobertas por folhas de plantas que, intencionalmente, foram colocadas à frente da gravura. Bastou para que, tempo depois, o hall estivesse vazio.
Puritanismo interiorano? Conservadorismo da elite branca? Ou a tela foi retirada para decorar alguma capela de Bauru? Não sei. Mas resta um consolo: são comuns na mesma avenida ou em muitos outros pontos da cidade os famigerados outdoors: uma prática publicitária necessária para a elite comercial realizar sua busca por clientes/transeuntes. E neles, acreditem, não predominam o pudor e o bom senso de uma moralidade burguesa: mulheres e homens semidespidos, em trajes e posições grosseiramente sexualizados. Isso é permitido moral e socialmente e as figuras só serão retiradas quando uma outra modelo de calcinha, sapato, bronzeador ou qualquer coisa do gênero, vier ocupar o espaço. Em resumo, o tolerável é o nu poluente das vias públicas, grosseiro e sexualizado, exposto pelas agências publicitárias. O nu, esteticamente arte numa vitrine, ao que tudo indica, é discriminado.
O autor, Dimas Alexandre Soldi, é mestre em comunicação pela Unesp, dimasoldi@bol.com.br