09 de julho de 2026
Articulistas

O grande perigo


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O grande perigo enfrentado hoje pela humanidade é o senso de impotência, de um mundo que está fugindo ao controle, de problemas tão imensos que parecem impossíveis de solucionar e ódios por demais arraigados para curar. Há a visão de que, como indivíduos, nada podemos fazer para afetar a história, mudar o curso do mundo ou provocar alguma diferença na organização das coisas. Mas há outra visão, maior e mais profunda: ainda que nossas vidas sejam apenas o bater de asas de uma borboleta, podemos colocar em movimento algo de importância basta ter esperança e coragem. Se não há como afetar o mundo todo de uma vez, é possível causar mudanças – uma ação por vez, um dia por vez, uma pessoa por vez.

Se existe o sentimento de que somos estranhos, deve existir, ao mesmo tempo, o sentimento de que somos vizinhos; de que temos deveres uns para com os outros, para com a herança do passado e para com as gerações que ainda não nasceram. É preciso que haja a percepção de que não estamos em um hotel em que serviços são proporcionados em troca de dinheiro, mas, sim, em um lar cuja história é a nossa própria história. Esta história, no entanto, mostra que, quase sempre, religiões e civilizações tendem a reforçar e não a desafiar o status quo. Ensinam a aceitação, não o protesto; a continuidade, não a revolução. Partem do pressuposto de que o mundo é como é porque esta é a natureza das coisas. Não há nada na natureza que nos leve a crer ser possível transpô-la com suas inexoráveis leis. Na luta pela sobrevivência, os fortes vencem, os fracos morrem, o poder decide e o destino é cego. De onde vêm, então, os pensamentos de que podemos mudar o mundo, humanizá-lo, torná-lo menos imprevisível e cruel, criando em seus desertos, oásis de justiça e bondade?

Eles nascem da esperança, embora não haja base lógica para acreditar que o amanhã será melhor do que o hoje. Estes pensamentos nascem quando conhecemos nossos direitos, responsabilidades e praticamos uma existência ativa calcada em bons costumes.

A esperança vem de um conjunto específico de convicções: que o universo não é cego aos nossos sonhos nem surdo às nossas orações; que não estamos sós; que estamos aqui porque Alguém quis que existíssemos e que nossa existência é, por si só, prova da força criativa do amor. Não estamos errados em lutar por justiça, por uma convivência fraterna e não estamos sozinhos nessa luta. Não há nada escrito na estrutura do universo a ditar que o ódio, a violência, a guerra e o derramamento de sangue são inerentes à situação humana. Mas, é preciso não confundir esperança com otimismo. Otimismo é a crença de que o mundo está mudando para melhor; esperança é a certeza de que, juntos, nós podemos fazer o mundo melhor. Otimismo é uma virtude passiva; esperança é uma virtude ativa. Não é preciso ter coragem para ser otimista, mas é preciso ser muito corajoso para ter esperança. Ela é como chama flamejante em meio a fortes ventos: difícil de acender, fácil de extinguir.

Quando sofremos as agruras deste mundo, são duas as perguntas que podemos fazer. A primeira é: “por que isto aconteceu comigo?”. A segunda: “o que farei?”.

A primeira olha para o passado; a segunda, para o futuro. A primeira nos coloca na situação de objeto, a segunda, de sujeito. A primeira é passiva e a segunda, ativa. Com a primeira, estamos à procura de alguém ou de alguma coisa para culpar. Com a segunda, aceitamos a responsabilidade.

O homem nasce como objeto, morre como objeto, mas possui a capacidade de viver como sujeito, como criador, que pode imprimir um estilo próprio à sua vida, desvencilhar-se de um tipo mecânico de existência e entrar num estado de ação e criatividade. A tarefa do homem no mundo é transformar uma existência passiva em existência ativa, uma existência de impulsos, perplexidade e silêncio em existência repleta de determinação, iniciativa, ousadia e imaginação.

Os direitos são passivos e as responsabilidades, ativas. Os direitos são exigências que fazemos aos outros; as responsabilidades, exigências que os outros nos fazem. Uma cultura baseada na responsabilidade existe no modo ativo. Ela enfatiza o dar sobre o receber, o fazer sobre o reclamar.

Para mudar o mundo a sociedade precisa preparar seus cidadãos para a responsabilidade. Quando isto não acontece tem-se uma sociedade na qual, quase sempre, o discurso dos direitos não passará de simples retórica, valendo apenas quando os direitos deixam de ser respeitados e não porque devam ser honrados.

A educação moral também é fundamental na mudança do mundo. Ela é a aquisição de bons hábitos, não apenas o aprendizado de regras. Assim como nenhum livro ensina a tocar piano, nenhuma instrução formal faz uma pessoa se tornar ética. Um idioma nós aprendemos falando; um jogo, jogando. Os valores morais, nós aprendemos praticando boas ações. Há aqueles que curam simplesmente por sua capacidade de escutar; alguns têm o dom de nos alegrar quando estamos tristes; outros de nos inspirar com seu entusiasmo e paixão. Cada um de nós tem dádivas de caráter únicas, mas elas precisam ser praticadas para serem apuradas e refinadas. Quando vence um torneio, um grande jogador de golfe, meu amigo de Departamento, costuma dizer: “eu tive sorte”. Então acrescenta, se divertindo: “É curioso; quanto mais pratico, mais sorte tenho!”.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru