10 de julho de 2026
Geral

Bombeiro salva a vida de recém-nascido por telefone

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

O cabo do Corpo de Bombeiros Altair Nelson Correia Oro tem 21 anos de carreira. São 7.665 dias dedicados a salvar vidas, trabalhando na corporação. Mas o destino quis que a madrugada de ontem fosse a mais emocionante de toda sua carreira de bombeiro. A 0h12, o cabo Oro recebeu um telefonema que mudou sua vida e a família Silva.

Enquanto Oro estava em seu plantão, na base do Corpo de Bombeiros no Centro de Bauru, no Jardim Redentor, a atendente Roberta Kelly Costa, de 25 anos, amamentava sua filha Lívia Costa da Silva, de sete dias, enquanto seu marido, o técnico de tintas Alexandre Barbosa da Silva, de 33 anos, descansava no sofá, assistindo a um filme. Nenhum deles sabia que aquela madrugada não seria igual às outras.

Logo após amamentar Lívia, Roberta esperou a criança arrotar e a colocou no berço. Foi aí que tudo começou. Lívia começou a gemer. Pensando que a menina estava com cólicas, Roberta foi até o berço e viu que a pequena vomitava pela boca e pelo nariz. “Percebi que ela não estava respirando e não sabia o que fazer. Chamei meu marido e nós estávamos desesperados”, lembra.

No desespero de ver a filha recém-nascida sem respirar, Roberta teve um momento de lucidez e lembrou de uma reportagem transmitida pelo Fantástico, onde o soldado Cilézio Olavo Ramos, da Polícia Militar de Santa Catarina, salvou a vida de uma recém-nascida de 10 dias, engasgada com o leite materno, por telefone. Sem pestanejar, Roberta ligou para o Corpo de Bombeiros em busca de ajuda e a encontrou na pessoa do cabo Oro.

Emocionado, ele relembra os momentos de angústia que passou durante os sete minutos mais longos de sua carreira. “É uma coisa que mexe com o emocional da gente porque trata-se de uma criança recém-nascida. E nós, que somos casados e temos filhos, nos colocamos muitas vezes no lugar dos pais. Então, a gente vive a ocorrência junto deles”, disse, lembrando que, mesmo com o emocional abalado, é preciso manter a estabilidade para transmitir calma para os pais.

De acordo com Oro, foi mais emocionante ainda pelo fato de ter conseguido salvar a vida da criança, mesmo a distância, dando tempo para os colegas da equipe de resgate chegarem e darem prosseguimento ao socorro. “Posteriormente, eu liguei para eles, preocupado em saber como estava a criança. Ao saber que ela estava em casa, bem, isso é muito gratificante”, salientou.

De acordo com Oro, em 21 anos de carreira, ele atendeu várias ocorrências, inclusive por telefone, mas dessa natureza, envolvendo um recém-nascido, foi a primeira vez. “Para mim é diferenciado, uma experiência nova, apesar de ter 21 anos de corporação”, frisou, destacando que foi uma das ocorrências que mais o abalaram, pelo fato de ser uma criança recém-nascida.

O sargento Carlos Alberto Pereira, que comandou a equipe de Resgate que foi ao local, lembra que ao chegar na residência de Roberta e Alexandre, eles ainda estavam bastante abalados, mas graças à orientação do cabo Oro, Lívia já tinha voltado a respirar, mas ainda apresentava cianose, ou seja, os lábios estavam um pouco arroxeados, por causa do período que ficou sem oxigênio.

Durante o percurso, a menina teve novos refluxos, um vômito pastoso e teve outra parada, mas a equipe conseguiu estabilizar a menina e ela foi conduzida ao Pronto Socorro, onde já chegou bem. “Cada dia a gente pega ocorrências diferentes, mas a que tem criança, cada dia ela emociona, porque com a criança, a gente tem uma sensibilidade maior. É gratificante e compensa cada dia de trabalho”, salientou.

Acompanhe trecho da conversa entre a mãe e o bombeiro

Cabo Oro: Bombeiros, emergência Roberta: Minha filha, ela está engasgada, ela não consegue respirar.

Cabo Oro: Quantos anos ela tem? Roberta: Ela tem seis dias.

Cabo Oro: Mas é ela quem está chorando? Roberta: Não, é minha filha maior.

Cabo Oro: Ela engasgou com o que? Roberta: Com leite...

Cabo Oro: Tá, eu vou mandar a viatura, me dá o endereço Roberta: (fala o endereço)

Cabo Oro: Fica na linha que eu vou te orientar, não desliga o telefone. Roberta: Tá.

Nesse momento, o cabo Oro aciona a viatura do Resgate, enquanto Roberta tenta acalmar a filha mais velha, Ana Laura, de apenas dois anos, que chora muito.

Cabo Oro: Alô. Vira ela no seu braço e dá uma palmadinha de leve nas costas dela. Faz uma pressão nas costas dela. Agora você vira ela, deita ela em uma base sólida e chupa o leite que está no nariz dela. Roberta: Pega a boca e o nariz?

Cabo Oro: Isso. Devagar, não muito forte. (O bombeiro continua orientando a equipe de resgate para chegar rapidamente ao local). Ela voltou? Roberta: Ela está chorando, mas ainda está roxinha.

Cabo Oro: Mas ela está chorando? Então a gente salvou sua filha. Aguarda que o resgate está chegando no local. Fica aí, não desliga. Roberta: Tá (chorando).

Cabo Oro: Como é seu nome? Roberta: Roberta.

Cabo Oro: Roberta, ela está respirando, né? Roberta: Ela está chorando.

Cabo Oro: Está chorando, está respirando, o importante é isso. Fala para o seu marido mantê-la acordada. Não põe nada na boca dela agora. Roberta: Agora ela parou, moço....