A inflação relançou a discussão sobre um assunto marcante na economia brasileira no final da década de 80: o gatilho salarial. Trata-se da correção automática dos salários com base no desempenho da inflação. O Sindicato dos Bancários incluiu o pedido de indexação dos rendimentos na pauta de reivindicações da categoria entregue na última quarta-feira à Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). O objetivo é evitar o “desgaste anual” provocado pelas negociações salariais.
A contraproposta apresentada pela Fenaban, no entanto, não agradou os trabalhadores. O documento prevê reajuste de 7,5%, incidindo sobre benefícios como ticket e cesta alimentação. A Participação nos Lucros e Resultados (PLR) oferecida foi a mesma do ano passado: 80% do salário, acrescida do valor fixo de R$ 943,00, porém limitada a salários de aproximadamente R$ 2.500,00. “A média de salário de um bancário hoje é de R$ 1.200,00” justifica o diretor do sindicato Marcos Lenharo.
Outros benefícios, como seguro-creche e auxílio funenário, também foram oferecidos pela Fenaban. “Isso é perfumaria, o trabalhador quer dinheiro”, ironiza o sindicalista. “Isso significa que teremos um retrocesso”, acrescenta Lenharo, sobre os valores oferecidos.
Segundo ele, a contraproposta provocou o descontentamento da categoria. “Isso somente repõe a inflação do período, e estamos amargando perdas salariais acumuladas na casa dos 31%”. A porcentagem corresponde aos três últimos governos (o último mandato de Fernando Henrique Cardoso e os dois de Luiz Inácio Lula da Silva).
Em contrapartida, a categoria decidirá nesta segunda-feira, em assembléia, se entrará em greve. A orientação da diretoria do sindicato é para rejeitar a proposta e entrar em greve por tempo indeterminado a partir de terça-feira.
Para Lenharo, outro empecilho enfrentado pela categoria é a atuação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), definida por ele como “braço de sustentação do governo do Partido dos Trabalhadores (PT)”. A proposta do órgão é pela paralisação de apenas um dia. “A CUT está atrapalhando os movimentos sociais dos trabalhadores”.
O Movimento Nacional de Oposição Bancária (MNOB), ligado à Conlutas, defende uma pauta diferenciada. Em três sindicatos, houve aceitação da pauta do MNOB: Maranhão, Rio Grande do Norte e Bauru.
Além da reposição das perdas salariais, o sindicato da categoria também defende a volta do gatilho salarial. “Há o reconhecimento do próprio Dieese que o ideal era que reivindicássemos também o gatilho, para que todas as vezes que a inflação subisse mais de 3% nós tivéssemos uma reposição”, observa Lenharo. A medida, segundo ele, evitaria o desgaste das negociações, assegurando a reposição da inflação nos salários.
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‘Retrocesso’
O gatilho salarial significa a correção automática dos salários pela inflação passada. A medida, implementada pelo governo brasileiro na década de 80, garantia reajuste automático de salário toda vez que a inflação atingisse ou ultrapassasse 20% em determinado período.
A correção da inflação era comum na época. O gatilho era uma garantia aos trabalhadores de todas as categorias de que o salário acompanharia o ritmo da inflação. Em 1994, o Plano Real acabou com a medida e começou a levar os índices inflacionários à estabilidade.
Na avaliação do professor e economista Reinaldo Cafeo, a reivindicação feita pelos bancários seria um retrocesso para a sociedade. “Acredito que o sindicato irá esbarrar na questão da legislação”, observa. Para Cafeo, se for aceita, a medida abrirá precedentes perigosos para que outras categorias solicitem o gatilho salarial. Neste ano, a inflação deve fechar na casa dos 6%.
Para o economista, o sindicato deveria reivindicar reajustes que repusessem a inflação em termos reais. “Na outra vertente, esse mesmo trabalhador pode sofrer, pois poderemos ter aumento dos preços. De um lado comemora-se o reajuste, mas de outro, há a inflação. Para o economista, seria o mesmo que voltar à época dos preços altos.