05 de abril de 2026
Regional

No tempo em que moradia era arte

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Uma fazenda com um suntuoso casarão construído no final do século 19 será o tema de uma exposição fotográfica que está sendo programada em São Manuel (69 quilômetros de Bauru). A data da mostra ainda não está definida, porque falta fechar os últimos detalhes. O foco das lentes dos pesquisadores, integrantes do Projeto Quatro Cantos, é a fazenda Saltinho, uma obra que tem a assinatura do escritório de arquitetura Ramos de Azevedo, mas que encanta e nos leva a uma viagem em que moradia era sinônimo de arte.

Fincado num dos pontos mais altos da fazenda está o casarão que tem um pé no passado histórico e outro no futuro, quando poderá abrigar um centro cultural, um museu ou mesmo um hotel fazenda.

A mostra que vem sendo organizada pelo Projeto Quatro Cantos tem por objetivo despertar o interesse das pessoas para que a obra seja tombada e preservada para as futuras gerações.

“A população precisa conhecer suas raízes. O município de São Manuel foi um dos mais ricos do Estado de São Paulo naquela época e muita gente desconhece isso. Essa fazenda fez parte de um complexo de 12 propriedades rurais, a maioria delas não existe mais ou teve suas características alteradas”, explica o publicitário e idealizador do projeto, Neto Nítolo.

Preservação

Para ele, a preservação do conjunto arquitetônico é primordial. “Essa fazenda é uma riqueza remanescente da época de ouro do café. A majestosa construção erguida em Rodrigues Alves, onde há uma estação ferroviária com o mesmo nome, está a nove quilômetros de São Manuel e foi uma das maiores e mais importantes do município”, segundo dados colhidos pelos integrantes do projeto no livro “As Nossas Riquezas de João Netto Cladeira de 1928”.

Na publicação, os pesquisadores, que pretendem reunir dados históricos, localizaram informações primordiais. Em 1927, a Saltinho produziu uma safra de 54 mil arrobas de café, com uma média de 800 arrobas diárias tocadas por força hidráulica.

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Casarão dos Simões

O casarão foi construído no final do século 19 e saiu das pranchetas de um dos mais renomados arquitetos brasileiros, Francisco de Paula Ramos de Azevedo. O mesmo que assinou as obras do Teatro Municipal de São Paulo, da Agência Central dos Correios, da Casa das Rosas, na avenida Paulista, da Santa Casa de Misericórdia e da Secretaria Estadual de Educação, todas na Capital. As paredes do casarão foram pintadas por José Canela, o mesmo que tem um painel exposto no Museu do Ipiranga.

Escadaria em caracol

Na sala uma escada em madeira na forma de caracol dá acesso ao sótão. O piso é algo que chama a atenção pelo capricho, todo em madeira e em ladrilhos. Os banheiros conservam as banheiras com a água que partia do fogão a lenha para refrescar os moradores.

Apesar das marcas do tempo, a construção continua firme e forte e não é para menos, suas paredes são reforçadas, construídas com cerca de cinco tijolos maciços, bem diferente das atuais que são construídas com um ou meio tijolo.

Além de seu tempo

O imóvel foi uma das poucas obras que na época tinham água encanada, luz elétrica, aparelhamento sanitário e telefone. Parte do material, segundo fontes extra-oficiais, vieram da França para que a família Simões realizasse o sonho de ter uma das melhores casas da região. Consta que a família era especializada no cultivo do café e chegou no município por volta de 1860, vindos de Minas Gerais.

No livro “As Nossas Riquezas...”, o casarão foi descrito como uma das melhores de São Manuel. “De avantajadas proporções, alta, com porão habitável e com um interior magnífico. Com recursos desejados em uma vivenda fidalga. De elegante alpendre de onde é possível descortinar-se bela vista dos arredores. Um cuidados jardim completa os atrativos do soberbo edifício.”

Visto por fora, a residência mostra que a época era de ouro, o auge do café brasileiro. Estilo neoclássico, o casarão tem 10 quartos todos em um único piso. No porão, os ganchos ainda lembram o espaço dedicado aos escravos.

Produção na época de ouro do café

A fazenda Saltinho foi uma referência na produção de café, como registra uma passagem do livro "As Nossas Riquezas de João Netto Cladeira de 1928". Consta que a propriedade de monocultura cafeeira produziu com força hidráulica 800 arrobas diária, perfazendo 54 mil arrobas no ano de 1927. Para escoar a produção de café a fazenda era dotada com uma estação de trem.