A regra que me foi passada foi a de votar no último minuto. Assim, há tempo para uma última investida nos eleitores, para alguma visita etc. Acostumado a isso, mesmo na qualidade de eleitor, sempre fui para a minha seção ao apagar da luzes da eleição. Numa delas, quando lá cheguei, havia apenas, na minha frente, um eleitor esperando
e um cidadão de chapéu e botas dizendo alto que queria votar no Salvador Afonso para prefeito:
- Não quero nem saber!- dizia ele. - Vocês me arranjem o número do Nenê.
É evidente que aquilo causou um certo tumulto na mesa, mas o outro eleitor provavelmente penalizado com o desespero do homem, aproximou-se e cochichou-lhe algo aos ouvidos. Meio relutante, o homem encaminhou-se, então, para a cabine indevassável. Quando parecia que tudo estava resolvido, o cidadão berra lá da cabine:
- Ô moço, será que o senhor me deu o número certo? O retrato que apareceu aqui é dum marmanjão. Num tem nada de nenê!...
Contada por Rui Bertoli