11 de julho de 2026
Esportes

Justiça Desportiva: Martorelli ataca clubes, governo e legislaçao

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

“Passei a vida sendo chamado de frangueiro, mas não posso criticar um juiz que deu sentença errada”. Em tom de desabafo e contestação, o ex-goleiro e presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo (Sapesp), Rinaldo José Martorelli, faz do microfone uma “metralhadora giratória” nas palestras sobre Direito Desportivo que ministra País afora.

Luvas e chuteiras penduradas há 13 anos, o ex-goleiro do Palmeiras - com breve passagem pelo Noroeste -, foi diplomado em Direito após se afastar dos gramados. Pós-graduado em Direito Desportivo, exerce funções em importantes instituições do setor, entre elas a de membro titular do Comitê de Litígios da Fifa.

A veia sindicalista é presente nas suas conferências, e não foi diferente em Bauru, onde participou do Congresso Nacional de Educação Física, promovido, no final de setembro, no auditório do Sesc, por estudantes da disciplina da Unesp.

Sem poupar farpas ao atual modelo de gestão (ou à inexistência dele) no futebol brasileiro, tampouco ao incentivo governamental, em tese, aos esportes olímpicos, Martorelli pautou o discurso em prol da profissão que exerceu por 22 anos.

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Lei Pelé

Sob a ótica do ex-jogador, a dificuldade dos clubes em digerir a legislação que enterrou o antigo passe resulta da acomodação dos times. “Os clubes, tão acostumados a essa ‘muleta’ financeira, não se prepararam e não se preparam, preferem reclamar”, disse em entrevista ao JC.

A ligação, feita pela maioria dos dirigentes e torcedores, entre o fim do passe e o êxodo de atletas para o exterior, na opinião de Martorelli, é descabida. Para ele, além da falta de adaptação do futebol brasileiro à normatização, o País ainda sustenta a “cultura da mordaça”. “As pessoas querem suas liberdades, mas não se importam com a liberdade dos outros. Todos buscam melhor proposta de emprego”, defende Martorelli, que prega: “Alto salário não significa exceção de direitos.”

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Ingestão

Ele atribui falta de afinidade, amadorismo e contradições do Governo com o setor. “Cada vez que o presidente se manifesta, fica claro que não tem nenhum conhecimento da área. Ele tem o foco no amparo às classes menos favorecidas. Só que no esporte, sempre luta pelo patrão”, protesta.

Para o sindicalista, o dito esporte amador tem incentivo financeiro do Governo Federal, apesar de contratos “obscuros” firmados entre clubes/empresa e atletas. “O futebol concentra recursos, sem monopolizar dinheiro público, exceto a recente Timemania”, considera. “O seu Nuzzman (Carlos Arthur, presidente do COB) colocou essa obrigatoriedade para pegar recursos públicos. Em São Caetano tem o vôlei, onde as meninas são contratadas mediante agente. Não há assinatura de jogadora, algo sem lógica”, exemplifica.

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Legislação

Em suas palavras, algumas sentenças são tidas como “burras”. Ele cita o episódio envolvendo o atacante Leandro Amaral, forçado pela Justiça a voltar para o Vasco após ser contratado pelo Fluminense. “O Leandro foi obrigado a trabalhar para o Vasco”, reprova. “Se o atleta deu causa ao rompimento de contrato, o clube tem de ser indenizado”, pondera. “Mas ele (jogador) não é obrigado a trabalhar para quem não quer”, ressalva.

As legislações falham também, acentua, nas punições em casos de doping. Ao invés de recuperá-lo, contesta Martorelli, a lei incentivaria reincidência e até mesmo o agravamento de situações. “Ao invés de ser retirado do ambiente de trabalho, que lhe dá sustento, ele (atleta) tinha que ser mandado para tratamento”, defende. “Mas aí (os tribunais) vão lá e dão dois anos de penalidade. Ele vai fazer o que. Matar e roubar?”

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Extenuação

Falando a estudantes da área, Martorelli, que chegou a freqüentar o curso, atribuiu à má formação às lesões dos atletas. “Tinha preparador físico que arrebentava jogador, até hoje tem”, relaciona. “Estourava tendão, joelho, porque achavam que aplicar o treino era sobrecarregar o atleta”, condena.

Além da sobrecarga, os jogos realizados sob sol escaldante foram lembrados pelo ex-goleiro, que, como sindicalista, recorda seu papel decisivo na implantação dos intervalos para reidratação observados no último Campeonato Paulista.

Apesar dos riscos aos jogadores atestada por especialistas, organizadores diretos e indiretos da disputa, a princípio, rechaçaram a iniciativa, diz. “Fui na Federação e não queriam. Então falei assim: Vou sair e falar para a imprensa que a responsabilidade é da Globo e Federação Paulista”, revelou. “Após isso, então, ficou certo uma vez (durante o jogo) e, no ano que vem, duas”, antecipa. “Tem que ser assim no Brasil”, lamenta.

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Do campo ao júri

Martorelli é lembrado pela maioria dos torcedores por sua trajetória no Palmeiras, clube que defendeu entre 1979 e 1988, numa época escassa de títulos no Palestra Itália.

Apesar de cotado, nos anos 80, entre os melhores do País, o goleiro defendeu o clube numa época triste para a torcida palmeirense, que vivenciava um jejum de títulos, quebrado apenas em 1993, cinco anos após deixar o Parque Antarctica.

Tanto a saída do clube quanto o encerramento precoce da carreira são atribuídos por ele mesmo à postura incisiva que adotava, já como atleta, nas discussões trabalhistas com dirigentes.

Após comprar o próprio passe - auxiliou na luta para extinguí-lo, se desvinculou do Palmeiras, em 1988, e rodou por clubes como Portuguesa, Goiás, Taubaté e passando pelo Noroeste, em 1994. Dos tempos de Alvirrubro, o ex-goleiro recorda um fator que o municiou na luta por melhores condições de trabalho aos atletas. “Jogar sob o sol em Bauru, às 4h da tarde não é fácil”, lembra.