Roma - O papa Bento XVI celebrou ontem missa pelos 50 anos da morte de Pio XII (1939-1958) e exprimiu o desejo de que ele seja um dia beatificado, apesar das controvérsias levantadas por sua suposta passividade diante do extermínio de judeus na Segunda Guerra.
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que o atual papa não assinou ainda o decreto que desencadearia a beatificação “porque considera oportuna uma maior reflexão”.
Em sua homilia, o papa afirmou enfaticamente que seu antecessor “com freqüência atuou de maneira secreta e silenciosa” porque, “naquele delicado momento, era a melhor maneira de evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus”.
A questão é ainda controvertida, e nem todos os documentos do Vaticano daquele período foram abertos aos historiadores. Há defensores incondicionais de Pio XII, como o jesuíta alemão Peter Gumpel, encarregado da documentação do processo de beatificação. “Afirmar que o papa foi indiferente (ao extermínio) é um erro imperdoável, porque ele fez todo o possível para evitar (o Holocausto)”, disse.
Mas, na segunda-feira,o grão-rabino de Haifa, em Israel, Shear Yshuv Cohen, pediu para que Pio XII “não seja tomado como um modelo e não seja beatificado porque não levantou sua voz contra o genocídio”.
Em “O Papa de Hitler”, traduzido há oito anos no Brasil, o historiador britânico John Cornwell sustenta que o pontífice, por sua omissão, tem responsabilidade indireta no extermínio de judeus. Mas Bento XVI lembrou o depoimento da então ministra do Exterior de Israel e futura chefe-de-governo, Golda Meir, quando da morte do papa. “Quando o martírio mais espantoso atingiu nosso povo, durante os dez anos do terror nazista, a voz do pontífice se levantou em favor das vítimas.”
O atual papa citou a mensagem radiofônica de Pio XII, no Natal de 1942, em que deplorou a situação de “centenas de milhares de pessoas perseguidas e levadas à morte por motivos religiosos”.