Em outubro de 2002, vivíamos o período de eleições presidenciais, quando, no segundo turno, a atriz Regina Duarte participou de uma das propagandas eleitorais mais marcantes da história política brasileira. Em menos de um minuto, Regina conseguiu ficar maculada para sempre. Apoiando o então candidato do PSDB à presidência, José Serra, ela disse: “Eu estou com medo!” Não por apoiar Serra, mas por temer a vitória petista, que era quase certa.
Além disso, falou que temia volta da “inflação desenfreada”, do aumento da crise econômica e que tinha segurança com Serra. Pois bem. Seis anos se passaram e parece que o medo já não existe mais. Na última semana, o CNI/Ibope divulgou uma pesquisa mostrando que a aprovação do governo Lula atingiu um novo recorde, 69%.
A aprovação pessoal do chefe de estado chegou aos absolutos 80% e a confiança chegou ao valor de 73%. Esta é a segunda maior aprovação de um governo na história brasileira. A primeira é do governo José Sarney, em 1986, após criação do plano Cruzado. Se antes a desconfiança sobre o PT e Lula eram altíssimas e geravam esse tal “medo”, hoje, a situação é exatamente oposta. Com a economia bem-encaminhada, a dívida externa em queda, as ações de auxílio aos menos favorecidos surtindo algum efeito, Lula conseguiu um ponto altíssimo de aceitação.
Dentre outros dados que podem comprovar isso, a pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada, do dia 22 de setembro, mostra bem essa situação. Segundo o Ipea, 13,8 milhões de pessoas subiram de faixa social nestes seis anos. O relatório apresentado indica que 10,2 milhões deixaram a faixa de renda mais baixa, que é de quem ganha até R$ 545,66 para a faixa intermediária que é de R$ 545,66 a até R$ 1.350,82.
É evidente que temos muito a melhorar. Somos o país de grande desigualdade pelo mundo, pagamos muitos impostos (carga tributária representa 35,1% do PIB), as políticas de educação básica e superior são precárias, mas parece claro que o país está em uma boa rota. Basta esperar para ver se a crise norte-americana não vai jogar tudo isso por terra e fazer o medo voltar. Vendo a crônica de Arnaldo Jabor, na Rede Globo, na terça-feira, dia 6, tive a impressão de que todos esses dados não existiam e que tudo que li nos últimos tempos eram falácias. O comentarista cobrava atitude do governo perante a crise financeira dos EUA e dizia que o Lula até agora não tinha precisado trabalhar de verdade, pois tinha pegado um curso econômico em processo do antigo governo. Será mesmo? Melhor repensar nossa mídia e como o medo surge.
O autor, Bernardo Sanches, é estudante de jornalismo da Unesp