10 de julho de 2026
Política

Movimento ganhou força nos anos 50

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

A atuação dos jovens na política é antiga no Brasil. A primeira campanha de destaque de que os estudantes tomaram parte, por meio da União Nacional dos Estudantes (UNE), foi “O Petróleo é Nosso”, movimento iniciado no final dos anos 40.

Em Bauru, a presença dos estudantes nos movimentos políticos só ganharia força a partir da metade dos anos 1950, com o surgimento dos primeiros cursos superiores na cidade. “Embora, naquela época, poucos jovens tivessem oportunidade de freqüentar a escola, eles tinham acesso à filosofia, política e sociologia nas escolas. Isso permitia a eles tomar consciência das contradições do mundo”, avalia Sebastião Clementino da Silva, o “Macalé”, professor da Universidade do Sagrado Coração (USC).

A grande entidade de representação dos jovens da época foi a Federação Bauruense Estudantina (FBE), que congregava principalmente os alunos do ensino secundário. Membros e diretores da associação estavam sob forte influência da Juventude Estudantil Católica, ligada aos setores progressistas da Igreja.

“A orientação que tínhamos era a seguinte: onde houvesse um movimento, deveríamos estar ao lado, apoiando. E, se não houvesse movimento, deveríamos fazer de tudo para criar”, explica o ex-vereador Milton Dota, último presidente da FBE.

Entre as bandeiras da entidade, estava a eterna luta pelo passe livre para os estudantes. “Era um movimento combativo. No início de 1964, eles organizaram grandes passeatas na cidade pelo passe livre e acabaram conseguindo um acordo com a prefeitura e a empresa de ônibus circular da cidade, que aceitaram oferecer um desconto nas passagens. Por ironia do destino, no dia em que o benefício entraria em vigor - 1 de abril daquele ano -, os militares deram o golpe e o direito acabou indo por água abaixo”, conta Antônio Pedroso Júnior, o “Chinelo”.

A FBE sofreria intervenção dos militares e depois entraria para a ilegalidade. Ainda assim, explica Pedroso Júnior, a juventude se fortaleceu. “A repressão ainda era fraca. Os militares só endureceram no final da década, devido ao número crescente de manifestações contra o governo e ao aumento da organização do movimento”, diz.

A dissolução do 30.º Congresso da UNE e a prisão das principais lideranças da entidade acabaria jogando o movimento estudantil em um longo período de letargia. A juventude só voltaria a ter papel importante na política brasileira no fim dos anos 70, com a retomada das atividades da UNE e a volta das manifestações nas faculdades e universidades, como em 77, no clássico caso da invasão da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) pela polícia.

Em Bauru, o retorno das organizações estudantis se daria em 1978, por intermédio de Ivonir Rodrigues Aires e o jornalista Eduardo Nasralla, criadores de um cineclube que exibia filmes políticos, como “O Encouraçado Potemkim”, do soviético Sergei Eiseinstein.

Um episódio que marcaria a trajetória do movimento foi a exibição da fita “O Caso dos Irmãos Naves”, do brasileiro Sérgio Person, que narra a história de um famoso erro jurídico ocorrido em Minas Gerais, na Ditadura Vargas.

“Os estudantes acabaram sendo levados pela Polícia Federal para prestar esclarecimento. Por sorte, eles tinham conseguido esconder a cópia boa do filme a tempo, e entregaram a ruim para as autoridades. Com isso, não havia provas que os incriminasse”, diz Pedroso Júnior.

A partir de então, diferentes entidades e organizações estudantis passariam a atuar na cidade. Entre elas estavam a Liberdade e Luta (Libelu), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) e a Ação Popular.

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Ainda mobilizados

Atuais integrantes do movimento estudantil avaliam que é errado comparar o comportamento dos jovens de ontem e hoje. “É como discutir quem foi o melhor - Pelé ou Ronaldinho Gaúcho. As épocas são diferentes”, avalia o presidente da União da Juventude Socialista (UJS) em Bauru, Hermann Ferreira Vicente, o “Minho”, 28 anos. Ele lembra que, hoje, o movimento não se restringe à questão estudantil, mas se dá em diversas frentes, como a ciência, a cultura, o esporte e o hip hop.

Vinícius França, 15 anos, membro da União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Bauru (Umesb), afirma não encontrar tantas dificuldades para mobilizar os jovens e adolescentes. “As dificuldades, quando surgem, são da parte das direções das escolas, que criam meios para impedir que os alunos se manifestem”, garante.

Para o presidente da Umesb, Mayron Richard de Souza Costa, o País vive atualmente uma ditadura maqueada, fato que dificulta mobilizar os jovens em torno de uma causa comum. “Antes, a opressão se dava de maneira escancarada. Você sabia quem era o inimigo. Hoje, a luta é mais difusa. Brigamos contra o neoliberalismo e pela garantia dos direitos expressos pela Consituição”, diz.