Na condição de pai e professor de Educação Física, gostaria de compartilhar a experiência que passei ao assistir a um jogo de futebol de crianças da Copa Big Boys, promovida pela Semel no dia 4 de outubro. Já havia me esquecido o que significava presenciar e porque havia me afastado de tais eventos. Confesso que me empolguei em vários momentos. Empolguei-me com o número de crianças envolvidas e com a quantidade de pais, familiares e amigos que assistiam aos jogos; empolguei-me com as jogadas de alguns, com alegria das crianças na hora do gol, com a reação nada empolgante, porém justificada e necessária, de quem tomou o tento; com a técnica e ousadia de alguns e com a noção tática de outros. Confesso que também me empolguei com o gol do meu priminho Matheus Tiuí, com sua determinação, sua obediência tática e com sua técnica apurada para a idade. Nesse momento deixei de ser professor de Educação Física e passei a fazer parte da família.
Mas a razão maior da minha empolgação estava relacionada à coragem de algumas crianças em participarem do jogo, e serem submetidas à cobrança que muitos pais e treinadores, com suas idades avançadas, talvez nunca tenham passado; à coragem de escutarem de outros pais “você é grosso”, “vai para cima dele que ele é fraco” e mesmo assim continuarem em campo. Alguns até pediam calma para seus filhos – “CALMA, CALMA, CALMA, CAAAALMAAAAA...”. Quem seria a bendita alma que teria calma diante de tanta calma, ainda mais se tratando de crianças “97”? Acho que “97” corresponde a porcentagem de pressão relativa aos adultos que a criança pode suportar.
No meio de tanta exaltação ouvia-se algumas vozes, porém insuficientes, que diziam “calma pessoal, o jogo é de criança”. Infelizmente, essas vozes estavam erradas, o jogo não era das crianças, era dos pais, era dos adultos que estavam lá assistindo. Para muitos, não eram os seus filhos que estavam jogando, mas eles mesmos. Nem os que se machucaram e precisaram de atendimento foram perdoados - “não é possível que o juiz interrompa o jogo para atender esse menino”, “coloque ele para fora” alguns diziam.
Diante de todo esse cenário, por pouco não saiu uma briga entre os mais exaltados. Seria uma finalização perfeita e pertinente ao contexto. Quando o jogo acabou, para alguns o culpado foi o “safado e ladrão do juiz”, que não deu um pênalti; para outros, as falhas do goleiro foram determinantes. Para mim, esses são os mais corajosos e os que mais merecem elogios.
Defender uma “meta” que para muitos goleiros do Futebol Amador de Bauru é grande não é para qualquer um. Chegou a ser substituído, talvez não pelas falhas, mas pelo desânimo diante de tamanho fracasso. Vários jogadores não chegaram a tocar na bola. Será que alguém vai perceber que os espaços e os equipamentos precisam ser adaptados para essa faixa etária? Será que alguém vai perceber que os espaços adaptados podem possibilitar um melhor aprendizado e um melhor desempenho dos seus jogadores nessa fase de iniciação esportiva? Uma prova disso é a cobrança de escanteio. Acho que é a única adaptação adotada.
Em todas as cobranças as crianças ficaram alvoroçadas com a possibilidade de gol e com a empolgação e estímulos positivos dos torcedores. É nesse momento que percebemos a necessidade do jogo ser estimulante e não frustrante. Parabéns por essa adaptação, parabéns pelo momento de verdadeiros torcedores! Como educadores por excelência, temos a missão oferecer estímulos adequados. Como formadores de opiniões temos que estimular nossas crianças a vencerem obstáculos com ética, determinação e respeito, a competirem com suas próprias limitações, a melhorarem seu desempenho, mas não em detrimento de outras crianças, de outras equipes.
Temos que mostrar que elas não jogam “contra”, mas “com” e que do outro lado não há inimigos e estes merecem respeito. O Brasil é conhecido como o país do futebol, o país que mais “fabrica” craques do futebol mundial. Isso realmente pode ser verdade, mas o Brasil também pode ser reconhecido como o país que mais deixa de “produzir” (desculpe-me os termos!) jogadores, é o país que mais elimina nossas crianças e futuros adultos de uma prática esportiva sadia, é o país que mais deixa de preparar bons atletas, praticantes e consumidores do esporte.
Talvez, os “Matheus Tiuís”, pelo fechamento perceptivo, pela concentração no jogo, pela técnica e comportamento tático continuarão a jogar, mas talvez os “goleiros”, diante de tamanha pressão, tamanha cobrança e tamanha incoerência pedagógica não tenham a mesma sorte. Mais uma vez poderei escutar “o que esse professor está falando? Ele não sabe que futebol é assim mesmo?” Mais uma vez pergunto: até quando estragaremos o espetáculo? Tudo isso me faz lembrar das saudosas aulas do professor Gualberto, na Unesp. Ao final de toda aula, uma lição aprendida. Um dos seus principais temas era “só perde quem não participa!”. Baseado no que presenciei, acho que a frase mais adequada e pertinente no momento seria – “só GANHA quem não participa!”. Só ganha quem fica em casa jogando videogame, tendo as sensações, mesmo que virtuais, que o jogo não lhes proporcionam. Feliz Dias das Crianças, “pequenos grandes jogadores”!
Flávio Oliveira - professor