Antônio não é nenhum criminoso. Mas, depois de ser demitido, ser vítima de um assalto, perder seu carro e todo o dinheiro do fundo de garantia ganho após anos de trabalho, se rende ao mundo do crime. Embalado pelo dinheiro fácil, Antônio arruma uma refém, Júlia, uma professora de psicologia.
Durante três dias, os dois vivem um relacionamento nada normal e acabam se apaixonando. Porém, a mistura de medo, amor, ansiedade, prazer, angústia e alegria torna a relação extremamente difícil. Afinal, entre os dois se misturam as figuras de autor e vítima sem saberem quem é o verdadeiro autor e quem é a verdadeira vítima. O filme de José Antônio Garcia “Minha Vida Em Suas Mãos” é uma deliciosa história que coloca em discussão sentimentos que podem estar presentes em qualquer relacionamento humano.
Diante dos problemas do cotidiano, os seres humanos são, muitas vezes, levados a cultivar sentimentos negativos que acabam sendo um problema a mais na arte de viver. Em outras palavras, além das dificuldades que o dia-a-dia nos apresenta, somos capazes de tornar nossa existência mais complexa e mais difícil através de sentimentos que cultivamos. Desta forma, ao invés de buscarmos solucionar nossos problemas, muitas vezes, aumentamos suas proporções.
Como afirma Epiteto, não são exatamente as coisas que devem nos preocupar, mas a compreensão que possuímos sobre elas. Típicos sentimentos que atrapalham nossa postura no cotidiano são, por exemplo, os medos e as ansiedades. Graças à incerteza da vida podemos ser tomados pela ansiedade ou até mesmo pelo medo, quando pensamos sobre nosso futuro. Estes dois sentimentos aparecem quando surgem probabilidades de enfrentar problemas ou dificuldades.
Justamente sentimos ansiedade ou medo quando não sabemos exatamente se tais problemas e dificuldades irão realmente acontecer e quais serão suas proporções. Uma forma de eliminar os dois sentimentos negativos é o enfrentamento dos problemas e das dificuldades. O enfrentamento se inicia com a reflexão racional do problema. Um problema exposto com clareza já fica meio resolvido.
De qualquer forma, quanto mais tentamos adiar ou evitar a existência dos problemas, mais somos torturados pelo medo e pela ansiedade. O pior é que os dois sentimentos aumentam a sensação de gravidade da situação. Em outras palavras, medo e ansiedade criam monstros que normalmente são fantasiosos. “O homem que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário” (Sêneca).
Outra dupla de sentimentos que pode dificultar a arte de viver é a angústia e a frustração. Estes sentimentos sempre contribuirão para que a vida tenha um sabor amargo, enquanto não compreendermos que tanto a angústia como a frustração pertencem à vida humana. No desenvolvimento de sua existência, o ser humano se encontra, inúmeras vezes, diante de escolhas. Toda escolha exige uma decisão e muitas vezes não podemos deixar com que outros, ou o próprio desenvolvimento das circunstâncias, decidam por nós. Nós mesmos temos que optar e normalmente o momento da decisão é um momento solitário.
Justamente ao ato de tomar uma decisão diante das escolhas estão interligadas a angustia e a frustração. Ao ter escolhas e tomar decisões o ser humano ficará obrigatoriamente angustiado ou frustrado. A angústia, porém, é muito mais simples de ser resolvida. Afinal, ela se dilui através da tomada de decisão. A angústia existe devido à indecisão na escolha de alguma alternativa. Superada esta fase ela desaparece. Porém, ao ser tomada a decisão surge inevitavelmente a frustração.
Se a angústia existe antes de nos decidirmos por algo, a frustração pertence à fase posterior à decisão. A existência da frustração é fácil de ser compreendida. Basta constatarmos que através de uma decisão sempre existirão perdas e ganhos. O segredo da frustração está na intensidade da perda e do ganho. Quando o ganho é maior que a perda, a frustração existirá, mas passará despercebida. Quando a perda é maior que o ganho, a frustração é sentida com mais intensidade. No que se refere às escolhas e à obrigatória frustração que sentimos, a maturidade consiste na capacidade de se impor pequenas frustrações para se ter longas compensações.
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