Ouvi o Presidente Lula dizer esta semana em São Paulo que o governo não vai deixar que falte crédito para a atividade produtiva e ele coloca em primeiro lugar o setor agrícola. Há recursos suficientes para financiar os investimentos que a economia brasileira precisa para continuar crescendo - garantiu. Ele afirmou que não vê nenhuma razão para que os bancos brasileiros restrinjam os empréstimos à produção, simplesmente porque há uma crise de crédito nos países desenvolvidos resultante das ações irresponsáveis de seus agentes financeiros.
O governo mostrou que esteve muito atento este ano, procurando se antecipar aos problemas do setor: o Ministério da Agricultura apresentou um plano de safra bem estruturado, no tempo correto, antes da crise e com disponibilidades para a oferta de crédito. As projeções da Conab para 2008/2009 são de uma colheita de 145 milhões de toneladas de grãos, algo como 3% a 4% acima do volume da atual safra. É um crescimento importante. Significa que, correndo bem o clima, a oferta agrícola continuará atendendo as necessidades de alimentação de nosso povo e ainda poderá ampliar as exportações, ajudando a diminuir a dimensão da fome mundial.
Houve alguma demora na renegociação das dívidas acumuladas na frustração de safras passadas e isso gerou um ambiente de tensão entre produtores e governo. A cobrança persiste porque não se conseguiu solucionar alguns problemas que intranqüilizam os agricultores, como a falta de um seguro que cubra a frustração das safras. Não foi possível avançar na formulação de um instrumento que funcione como um seguro de renda quando se perde a safra em razão das instabilidades do clima, da ação de pragas e doenças e até mesmo como proteção nos casos de excesso de volatilidade no câmbio. Este ano, por exemplo, o agricultor enfrentou problemas de elevação de custos com fertilizantes e outros insumos sujeitos à variações nos preços de importação.
Um terceiro fator, alvo da cobrança mais urgente, é a demora na liberação dos créditos de custeio, que se tornou um problema crucial neste meados do mês de outubro que é o auge do plantio. Se o agricultor não puder aproveitar as chuvas e atrasar o plantio, vamos ter problemas sérios quanto ao volume final das safras e queda nos índices da produtividade que são um trunfo importante da agricultura brasileira. O governo tornou disponíveis mais 5 bilhões de reais para agilizar os financiamentos do plantio, mas persiste a demora na liberação dos créditos bancários.
É preciso agir rápido porque não há nenhuma razão para que o crédito ao setor agrícola diminua, empoçado nos bancos e com a ameaça de aumento nos custos dos empréstimos. É legítima a reclamação dos agricultores, que devem continuar fazendo pressão sobre o governo para que o Banco Central ouça o presidente e utilize todos os instrumentos de que dispõe para agilizar a liberação desse dinheiro que está nos bancos. Nem sequer há razão para aumentar o custo dos empréstimos ao setor agrícola que vem cumprindo plenamente suas funções.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA_USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento. contatodelfimnetto@terra.com.br