08 de julho de 2026
Articulistas

O prefeito perfeito


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O prefeito da minha devoção nem precisaria ter glaucos olhos, já que entramos no segundo turno com a cor da íris definida. Basta que cuide dos buracos, colete o lixo com eficiência, pague em dia os funcionários e enterre os indigentes. Tuga Angerami entrega a Prefeitura melhor do que recebeu. Se o seu sucessor fizer a mesma coisa com o próximo, ótimo. Nem precisa cumprir metade do que prometeu. Campanha é assim mesmo. O povo compreende. Administração pública é outra coisa. A primeira virtude de um prefeito é a de ser capaz de estimular a cooperação. Com a cidade unida vamos dar cabo da hidra de sete cabeças que em gestões passadas fez morada nas Cerejeiras. O bicho pode voltar a qualquer tempo e devorar os recursos públicos em benefício do privado. Outra coisa: se Bauru continuar dividida entre candidato dos ricos e candidato dos pobres, onde a Zona Sul não interage com a Zona Norte, a tendência é a estagnação.

Em 1915 os bauruenses elegeram como prefeito o médico Luiz Vicente Figueira de Mello. O maior clamor popular, como hoje, era por assistência médica. Tempo da “feia úlcera de Bauru”. Sem dinheiro - o Estado ausente, como sempre - Figueira de Mello uniu-se ao primeiro juiz da Comarca de Bauru, Rodrigo Romeiro. O magistrado ajudou a convocar os empreendedores, entre eles o agrimensor Luiz Gonzaga Falcão que doou uma gleba de três alqueires para dar inicio à Santa Casa de Misericórdia. O povo ajudou nas quermesses comprando pipoca, quentão e frango assado. Doações aconteceram em todos os níveis e o hospital funcionou. Os imigrantes fizeram algo parecido na fundação da Beneficência Portuguesa. O problema da leishmaniose cutânea foi resolvido. Hoje temos a leishmaniose visceral que somente poderá ser controlada se a população se unir com esse propósito. No embalo, Falcão tomou a si a tarefa de fazer a cidade crescer e abriu a vila que leva o seu nome.

Bauru nasceu e tornou-se grande graças a esse espírito cooperativo do seu povo, guiado pelo exemplo de luta e sacrifício de verdadeiros líderes. Anos antes a população tinha pressionado os vereadores a transferir a sede da vila de Fortaleza para Bauru. Bastou trazer o cofre, em carro de boi. Quem foi o autor da proeza? Foram todos. Assim a cidade se emancipou e cresceu. O cofre estava vazio. Ninguém estava atrás de dinheiro, mas de espaço para expansão do seu espírito realizador.

Os prefeitos erram ao criar estruturas hierárquicas, autoritárias, autocráticas e ao estimular, ao invés da cooperação, a competitividade no mau sentido. Se o prefeito inspira a organização em rede, de entidades, de pessoas de vários níveis e de maneira horizontalizada, todos devidamente conectados, surge a cooperação e a solução dos problemas. Se os problemas forem insolúveis, os cidadãos são co-participes, discutiram, conhecem as dificuldades e sabem que levará mais algum tempo até que o obstáculo seja afastado. Isto muda o comportamento da comunidade. Antes diziam que tudo era culpa do prefeito. Agora, se está acontecendo certo ou errado, os membros da comunidade assumem a sua responsabilidade porque tem o dedo de todos. Aprenderam o valor da cidadania. Vão se sentir responsáveis pelos erros e fracassos.

Democracia é um pacto de convivência, uma rede pactuada de conversações para resolver os conflitos, ao invés de resolver pela autoridade ou imposição de força, de cima para baixo. Então é preciso que o prefeito seja democrático. Desenvolvimento é sempre o aparecimento do que não existe, é uma formula que cada localidade, que cada territorialidade encontrou para se expressar no mundo. Da cooperação nasce o empreendedorismo, que é a capacidade de sonhar e de correr atrás do próprio sonho para torná-lo realidade.

O prefeito que eu quero seria aquele capaz de motivar à cooperação e estimular o empreendedorismo. É um perfil possível. Das gestões que acompanhei como jornalista, Alcides Franciscato foi o maior exemplo. O prefeito eleito precisa entender que, se ele colocar o seu carisma, já que foi eleito pela maioria, a serviço a cooperação e exploração dos nossos potenciais, a própria comunidade vai descobrir coisas fantásticas. Que a ninfa do bosque o inspire.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC