O resultado das eleições em Bauru expressa, em parte, um processo de fundo da sociedade brasileira. Há um campo democrático e popular que vem encontrando formas organizativas já com um certo grau de eficácia, tanto na esfera política, quanto na econômica, para ir implantando mudanças reais, no bojo mesmo das condições vigentes. E há um campo conservador, cujo processo de progresso social há muito se esgotou: sobra-lhe hoje apenas o interesse de manter relações expropriadoras de propriedade.
Dado que os próceres bauruenses do conservadorismo levantaram a esfera da inteligência e da razão para “explicar” seu fracasso eleitoral, penso ser importante analisar esse aspecto. Em torno dos séculos VIII e VII aC os gregos, vivendo uma época de progresso social (p. ex., expressa na passagem de uma sociedade ágrafa para uma sociedade dotada de escrita) caracterizaram a “métis”, a inteligência, através da figura dos irmãos Prometeu e Epimeteu, portanto, da unidade dialética indissolúvel de dois tipos de inteligência. Prometeu significa a inteligência prospectiva, capaz de captar o que no presente representa as tendências de seu desenvolvimento, o seu vir-a-ser. Nos atuais trabalhadores a inteligência prometéica é o pólo predominante (na sua unidade com a inteligência “epimetéica”).
Isso nada mais, nada menos, significa a objetividade de sua posição na produção humana, cujo interesse é centrado no pólo do valor de uso do que é produzido, o que pressupõe maestria cognitiva quanto ao movimento real do objeto e dos meios de trabalho. Significa também, no seu pólo “epimetéico”, distinguir com clareza as condições presentes, respeitando assim as condições das tendências de desenvolvimento. Isso está articulado, na esfera política, à conjugação das necessidades com as possibilidades, a busca constante da justa medida ao avançar e o afastamento de voluntarismos que proponham um futuro que pudesse vir a fórceps. Foi essa inteligência que se expressou, na via eleitoral, na votação da chapa Rodrigo Agostinho/Estela Almagro.
Epimeteu significa a inteligência reprodutiva, enraizada no presente e capaz de raciocinar apenas sobre o já acontecido ou realizado. Sua linguagem é centrada no verbo ser e seu raciocínio é o da classificação de atributos, que povoa o universo de “entidades” e toma em seguida o que foi pensado como se fora um decalque efetivo do “universo”. Nos empresários a inteligência “epimetéica” é o pólo predominante. Isso nada mais, nada menos, significa a objetividade de sua posição na produção humana, centrada no pólo do valor de troca do que é produzido e, por conseqüência, uma inteligência que envida todos os esforços no sentido de conservar as atuais relações espoliadoras de propriedade. E que em situação de crise estrutural da produção, como a que vivemos atualmente, o que há neles de prometéico quase que se evapora. Haja vista, p. ex., as “soluções” que os principais Bancos Centrais têm fornecido para a crise, sempre depois do já acontecido, mas injetando uma massa de trabalho social de grande magnitude, recursos públicos da ordem de 2 trilhões de dólares, para salvar especuladores do capital fictício. Só depois da explosão e das labaredas começam a agir, mais parecendo o bombeiro que porta uma grossa mangueira e que, destrambelhado, nela se enrola, perdendo a capacidade de dirigir corretamente o jato de água.
O que os gregos antigos não caracterizaram, talvez devido à grande força progressista do momento em que viveram, é que há um terceiro tipo de inteligência, regressiva, “retrometéica” poderíamos assim dizer. Uma inteligência que opera a golpes inauditos de subjetividade, na esperança de presentificar o que já deixou de ter razão de existência.
Em Bauru, a candidatura conservadora só o foi conservadora em parte. Por outra parte deu guarida à expressão “retrometéica” em sua forma quase pura. Assistimos a um desvario, representado por um dos núcleos dirigentes dessa campanha eleitoral, que mostrou um pensamento que raciocina sobre a representação da sociedade brasileira como se estivesse ainda dividida em casa grande e senzala. Isso se expressou em todo um gama de preconceitos. O principal foi em relação aos trabalhadores, que não teriam “inteligência”, não votariam com a “razão”, e tudo porque não votaram em massa nessa candidatura, ora vejam só. Mas também abusaram de preconceitos da ordem do gênero, de raça e da orientação sexual. É uma visão de mundo despótica e mesquinha, que ainda existe no meio social e promove toda uma sorte de opressões cotidianas. Mas essa ordem de fatos tem que encontrar resistência.
Há um mínimo de padrão civilizatório que a humanidade já logrou edificar e tudo que rebaixe para além desse mínimo deve ser, socialmente, combatido. Esse mínimo vem sendo modelado na concepção de Direitos Humanos, modelo esse que serve de orientação para ações em prol da civilização. Tanto é assim que os próprios setores sociais regressivos o reconhecem, pois elegem como um de seus cavalos de batalha dirigir toda sorte de impropérios contra os Direitos Humanos. Em suma, entre outras coisas, o atual processo eleitoral mostrou que em Bauru está na ordem do dia a defesa do processo civilizador.
Geraldo A. Bergamo - presidente municipal do PC do B, RG 5.538.451