Pouco antes do golpe militar que tirou João Goulart do governo, em 6 de outubro de 1963 ocorreram as eleições municipais. Nuno de Assis retornou ao Poder Executivo, numa coligação do PSP com o PTB, obtendo 10.122 votos e seu concorrente mais próximo, Nilson Ferreira Costa, conseguiu 7.466 sufrágios. O vice-prefeito eleito, radialista Horácio Alves Cunha, pela mesma coligação, teve 14.023 votos.
Nicolinha apoiou o dr. Luiz Zuiani e este foi o 3.º colocado. Dr. Nuno, além do apoio de Brisolla, conseguiu também o de Irineu Bastos, meu pai, e de Antônio Bortoni, que na eleição anterior, mesmo residindo há pouco tempo na cidade, obteve boa votação. Entre Nuno e Horácio não houve qualquer conflito, sendo que em meados de 1966 o vice faleceu. Antes, ocupou em curto período a prefeitura, numa licença do titular. Em homenagem póstuma, o Palácio das Cerejeiras recebeu o seu nome.
O golpe praticado pelos militares rapidamente repercutiu em Bauru, por se tratar de cidade estratégica com seu eixo ferroviário contendo muitos militantes de esquerda nele trabalhando. Muitas pessoas foram detidas como comunistas, pois, no Brasil, vinham sendo reprimidos desde 1935, antes da implantação do Estado Novo.
Em nossa cidade, a repercussão maior deu-se na Câmara Municipal que, atendendo ofício da delegacia de polícia local feito às pressas, em 4 de abril de 1964, o Legislativo cassou o vereador Edison Bastos Gasparini e seu suplente Edson Francisco (cassado sem tomar posse), convocando para sucedê-los Antonio Mourão.
Essa sessão legislativa foi assistida por muitos bauruenses indignados com a existência do comunismo e seus filiados locais, a maioria a favor da cassação. Meu pai, vereador Irineu Bastos, tentou defender o direito de defesa que o ausente Gasparini podia postular, mais foi ofuscado pela vaia contínua ali registrada. Gasparini e Edson tiveram de auto-exilarem-se. Eram a eles prometidas fortes reprimendas. Ficou registrado na história, a fuga de Gasparini alojado precariamente no telhado da Câmara, quando as forças policiais e a Frente Anti Comunista procuravam-no no prédio.
A administração Nuno de Assis, independente desse momento complexo da nossa história política, correu tranqüila e ele inaugurou o paço municipal que iniciara na Praça das Laranjeiras, sendo que meu pai, em sua administração, deu nele forte impulso na tentativa de conclui-lo, num período de alta infração no País. Com a administração Nuno, encerrava-se o primeiro ciclo democrático que viveu o Brasil, iniciado em 1946.Assim mesmo ela foi beneficiada por um casuísmo: teve mais um ano de mandato prorrogado pelas circunstâncias da época.
Os militares fizeram a partir de então, com a cumplicidade do Congresso, substanciais mudanças no processo político, para se sustentarem no Poder. Extinguiram os partidos existentes, criaram dois outros, a Aliança Renovadora Nacional, da situação e o Movimento Democrático Brasileiro, da oposição, esta última podendo exercitar esse papel, mas com moderação, até determinados limites permitidos pelo momento de exceção em vigor.
Alegando a necessidade de haver harmonia entre os eleitos para o Executivo, foi adotado o voto casado para prefeito e vice, isto é, votando no prefeito estaria votando também no vice. Curiosamente, será nessa modalidade eleitoral que ocorrerão conflitos entre os eleitos. Prosseguirei com esse assunto.
O autor, Irineu Azevedo Bastos, é colaborador de Opinião