09 de julho de 2026
Nacional

‘Che’ e ‘A Guerrilha’ são bons ‘filmes de ator’

Por Sérgio Rizzo | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Há filmes de autor, dos quais a Mostra de São Paulo sempre foi grande vitrine, e filmes de ator. As duas partes de “Che” pertencem mais ao segundo grupo do que ao primeiro, como resultado da determinação de Benicio del Toro - também co-produtor - em interpretar Ernesto Guevara (1928-1967).

O papel já lhe valeu o prêmio de interpretação no Festival de Cannes deste ano e o favoritismo precoce - antes mesmo do lançamento do filme nos Estados Unidos - ao próximo Oscar (que ele já recebeu, como coadjuvante, por outra parceria com o diretor Steven Soderbergh, pelo trabalho no longa “Traffic”, em 2000).

De acordo com os padrões habituais em Hollywood, espera-se nesses casos a maior proximidade física possível entre ator e personagem. Além de ser beneficiado nesse quesito, Del Toro evidencia indiretamente que fazer de Gael García Bernal um jovem Che foi uma licença poética de “Diários de Motocicleta” (2004).

O desafio para sua atuação se concentrava em como chegar, com verossimilhança, à versão humana de um mito - recentemente demonizado, por exemplo, em breve aparição de Jsu Garcia (que, por coincidência, faz aqui o revolucionário Jorge Sotus) no vingativo “A Cidade Perdida” (2005), com direção de Andy Garcia.

Optou-se por um registro próximo ao célebre conceito de “endurecer sem perder a ternura”: o Che recriado por Del Toro se fragiliza em ataques de asma e se encanta com a inocência de camponeses, mas não foge da linha de frente em combates e conduz uma execução com a serenidade convicta de um magistrado.

Coordenadas

A primeira seqüência do filme, em que o “argentino” é apresentado por Raúl Castro (Rodrigo Santoro) ao irmão Fidel (Demián Bichir), em um jantar na Cidade do México, em 1955, já estabelece as coordenadas da interpretação: alguma timidez, um olhar doce e algo distante, inteligência aguda, certa dose de loucura.

Baseado nas memórias de Guevara sobre a Revolução Cubana, “Che” - que, nos Estados Unidos, será lançado como “O Argentino” - é o mais envolvente dos dois longas, saltando do episódio inicial no México para a guerrilha em Sierra Maestra e para a visita de Guevara à ONU, em 1964, em idas e vindas que focam mais o personagem do que a revolução.

“Che - A Guerrilha” (nos Estados Unidos, a segunda parte será chamada apenas de “Guerrilha”) se inspira em “O Diário do Che na Bolívia” para reconstituir o período final da vida de Guevara.

Se a primeira parte é pautada pela determinação e pela esperança, a segunda corresponde a um mergulho indigesto no fracasso - ainda que, graças ao olhar com que Del Toro encerra o filme, talvez não seja esse o sentimento que o espectador leve para casa.