Em setembro do ano passado, um bebê recém-nascido foi jogado pela mãe em um rio poluído em Minas Gerais. Em março deste ano, Isabella Oliveira Nardoni, 5 anos, morreu após cair do 6.º andar de um edifício na Zona Norte de São Paulo. No dia 17 deste mês, a adolescente Eloá Cristina Pimentel, 15 anos, morreu depois de ser mantida refém por 100 horas pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves, 22 anos, em Santo André.
De tempos em tempos, uma tragédia familiar ganha proporções gigantescas, como as citadas acima, e toma conta de toda a imprensa. Coincidência ou não, crimes parecidos surgem na seqüência. Tomando como exemplo o caso mais recente, a morte da menina Eloá, pelo menos três fatos semelhantes foram noticiados nos dias que se seguiram ao drama em Santo André. Por que será que isso ocorre?
São as pessoas que se sentem “estimuladas” a imitar o que viram na TV e, assim, ganhar seus 15 minutos de fama ou é a imprensa que passa a dar atenção aos crimes da mesma natureza só para faturar mais alguns pontinhos de audiência? Ou seria ainda uma junção das duas coisas?
Para a doutora em educação e professora licenciada do curso de jornalismo da Universidade do Sagrado Coração (USC) Alexandra Bujokas, é difícil dizer o que provoca o quê. De qualquer modo, estudando o funcionamento dos meios de comunicação e a apropriação que o público faz dos conteúdos produzidos pela imprensa, Alexandra diz que é possível explicar alguns fenômenos.
Segundo ela, a reação do público diante das tragédias pode ser explicada pelo fato de a imprensa ocupar um papel central na vida da maioria das pessoas. “A não ser que a pessoa viva em Marte, é muito difícil não saber resultados de jogos, de eleições, as últimas declarações polêmicas dos políticos ou as agressões e assassinatos mais chocantes”, argumenta.
Pelo caráter de centralidade que os meios de comunicação têm na vida social e cultural, Alexandra diz que as pessoas acabam repercutindo os assuntos nas conversas, isto é, faz parte do comportamento social comentar as notícias que são destaque. “Desse modo, a agenda da mídia vira a agenda do público”, afirma.
E algumas “mentes desequilibradas”, como define a socióloga e coordenadora do curso de jornalismo da Universidade Paulista (Unip), Maria Cecília Martha Campos, aproveitam desse poder da imprensa para aparecer. Usam a violência, que é um tema recorrente nos meios de comunicação, para alcançar a notoriedade - os seus 15 minutos de fama.
A psicóloga Cassia Yuri Asano cita o caso recente de um cobrador de ônibus desempregado, em Itapecerica da Serra, que manteve a mulher sob ameaça de uma faca por quase oito horas e se dizia inspirado na atitude de Lindemberg.
“É possível que o caso Eloá tenha sido um gatilho para o que ele (cobrador) fez, como o próprio admite. No entanto, é mais plausível acreditarmos que uma perturbação ou uma condição interna desestruturada pré-existente fez com que ele adotasse tal comportamento, do que acharmos que apenas a notoriedade do caso é a causa única da sua atitude”, pondera a especialista em teoria psicanalítica.
Cecília concorda. Em sua opinião, o que motiva a ação criminosa é a situação psicológica e emocional do personagem. “Mas a mídia tem um papel importante nesse processo”, analisa a socióloga.
Sobre os fatos semelhantes que se sucedem depois de uma tragédia que ganhou repercussão nacional, Cecília acredita que não é coincidência e nem uma onda motivada pelo o que ocorreu, mas uma questão de prioridade da imprensa, ou seja, os meios de comunicação passam a dar mais atenção para acontecimentos parecidos com a tragédia que rendeu muitas páginas nos jornais e revistas e horas nas emissoras de TV. É uma forma de “faturar” mais um pouquinho sobre o mesmo assunto.
“Outros casos, como os de Isabella Nardoni e Eloá, devem estar acontecendo neste momento e não são noticiados ou não ganham tanto destaque. São acontecimentos corriqueiros que devem continuar ocorrendo sem tanta atenção da mídia”, analisa a socióloga.
Cecília compara esse tipo de cobertura à uma onda. Enquanto ela está no auge, todos querem pegar uma carona. Quando a força cessa, partem para outra.