Mais preocupados com a briga pela audiência do que com a informação, alguns meios de comunicação exageram e transformam tragédias em um grande espetáculo. Com isso, em determinados momentos, mais atrapalham do que ajudam. Essa é a opinião da psicanalista Luciana Guareschi, 34 anos.
Para ela, a mídia, qualquer que seja, influencia muito as pessoas. “Se assim não o fosse, não teríamos propagandas ao custo de milhões de reais”, justifica. Para Luciana, é por isso que a imprensa é chamada de “quarto poder”. Mas, de vez em quando, parece que ela se esquece disso, na opinião da psicanalista.
Ela cita o caso da adolescente Eloá. Na opinião de Luciana, parte da mídia foi irresponsável diante do acontecimento e contribuiu para o desfecho trágico.
As emissoras teriam errado ao colocar apresentadores de TV para negociar e conversar ao vivo com o seqüestrador da adolescente. A socióloga e coordenadora do curso de jornalismo da Universidade Paulista (Unip), Maria Cecília Martha Campos, diz ter ficado surpresa quando se deparou com isso. “Eu vi a imprensa negociando a vida das duas adolescentes (Eloá e Nayara), como ator participante. Fiquei me perguntando: será que (os apresentadores) estão preparados para isso? Será que eles têm noção do que estavam fazendo? Que autoridade, que isenção eles têm para fazer o que fizeram?”, critica.
Cecília e Luciana concordam em um ponto. Quando se trata de um crime passional, dificilmente a ação é premeditada visando atenção da imprensa. “Não creio que o rapaz (Lindemberg) tenha surgido (na casa de Eloá) com a intenção de conseguir notoriedade. O que ocorreu foi que outros atores entraram em cena (família, polícia, imprensa) e ele passou a ser o ator principal”, alega a socióloga.
Segundo Luciana, quando o crime envolve paixão, na maioria das vezes, ele é impensado e ocorre por uma atitude impulsiva. É diferente quando alguém joga um bebê no rio ou entra numa sala de cinema ou de aula atirando nas pessoas.
Cecília lembra que, em alguns desses casos, criminosos gravam um vídeo dizendo o que iriam fazer, ou seja, planejam o crime e ainda querem divulgação dos seus atos. Normalmente, eles cometem o crime e depois se matam. “É o extermínio total. É como se eles se sentissem o julgador do juízo final”, diz ela. São crimes motivados por crises existenciais, não emocionais.
Para Luciana, a presença maciça dos meios de comunicação em situações como o seqüestro em Santo André pode mexer com a cabeça daquele que está em ação, seja ele criminoso ou não. “Poder ver seu próprio ato na TV, sua façanha em ter conseguido mobilizar todo aquele aparato policial e mais ainda a atenção de milhões de telespectadores, pode ter reforçado a crença em fantasias grandiosas.”
Na avaliação da psicanalista, é possível tirar lições positivas de tragédias como essa, já que, infelizmente, não será a última. “A imprensa precisa rever o que acredita ser ‘informar’. E o público tem de rever também sua posição de devorador de desgraças alheias”, recomenda.