08 de julho de 2026
Articulistas

‘Fatos e versões’


| Tempo de leitura: 3 min

Eu gosto de catar o mínimo e o escondido... com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto. (Machado de Assis - 4/11/1900). Usando como epígrafe frase de uma crônica do mestre Machado, com quem me identifico há mais de meio século, empresto o título de um programa de Cristiana Lôbo, da Globo News, para dirimir algumas dúvidas e mal-entendidos que minha “crônica” de 8/11/08 provocou em uns poucos leitores. Esse título não só mostra a lucidez da comentarista em questão, mas, sobretudo, reforça o que tenho dito nesta coluna há algum tempo: a teoria semiótica deu uma contribuição enorme para os estudos do discurso ao comprovar que a “verdade” (sempre entre aspas) não existe. O que há são diferentes versões, que aceitamos ou não, de acordo com a confiança que temos ou não em quem diz as coisas. A semiótica interpreta o parecer dos sentidos.

Parece-me, felizmente, que o principal de meus objetivos começa a ser atingido, pois os tais leitores que me contestaram direta ou indiretamente, todos de um mesmo grupo ideológico, debruçaram-se sobre meu texto e foram ao dicionário para entender a origem dos termos estranhos que costumo usar, e isso é um bom sinal. Talvez possamos elevar o nível do debate, já que esta seção do jornal não é um espaço para bate-boca. Isso se faz pessoalmente, olho no olho, como eu já fiz com alguns elementos de tal grupo e descobri que, nessa hora, perdem a voz e ficam perplexos.

Se uma pessoa não indica seus créditos na Tribuna do Leitor, e nem o jornal pode fazer isso, é porque há um mistério, talvez seja um nome fantasma ou um nome coletivo, que não é difícil de ser identificado, pelas marcas deixadas no discurso. Nomear os melhores articulistas da seção Opinião é uma dessas marcas, difíceis de serem apagadas. Pela reação ao conteúdo de minha crônica, fico em dúvida apenas quanto ao que mais chocou os que me contestaram. Foi o fato de eu juntar, num mesmo grupo manipulador, a Cia, a Opus Dei, a Igreja Católica e uma certa elite, que age em diferentes pontos do tempo e do espaço? E não ficou claro qual desses elementos estão querendo defender.

Primeiro esclarecimento: não usei nenhuma vez a palavra “inteligência”, apenas as expressões “cidadãos conscientes” e “lucidez”, que são conceitos bem diferentes. Depois, não se pode confundir texto acadêmico com texto jornalístico, pois o primeiro não pertence às mídias, como as entendemos hoje: comunicação de massa. Mas pode vir a tornar-se mídia, se uma tese acadêmica for publicada como livro. E aproveitar o meu texto para falar mal do PT é uma recorrência inacreditável, que só se compara aos múltiplos elogios ao “master” Di Franco.

Outros esclarecimentos: chamar meu raciocínio de maniqueísta só não é pior do que usar uma falha grave de raciocínio, ao desdizer na conclusão de uma pretensa dissertação o que foi dito na introdução. Lido com a incoerência do texto há mais de 40 anos e posso afirmar, com convicção, que é um erro difícil de corrigir, pois depende da capacidade de raciocinar abstratamente. E cometer esse erro citando uma frase em espanhol (como eu fiz) é de uma “cafonice” inaceitável. Que os amigos venham em seu socorro!

A autora, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é pesquisadora-doutora da Unesp