11 de julho de 2026
Articulistas

Reinvenção do capitalismo


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A recessão da economia mundial já é um fato. O ministro Mantega prefere falar em “desaceleração”, em termos de Brasil. Recessão e depressão somente acontecem na casa dos outros. Ainda vivemos o otimismo da “marolinha”. Depressão acontece quando o dinheiro existe, mas ninguém se atreve a usá-lo com medo de que venha a faltar no futuro. Uma velha piada explica melhor a situação. Recessão é quando o seu vizinho perde o emprego. Depressão, quando você é o despedido. De nada vai adiantar o Banco do Brasil colocar recursos à disposição das montadoras para financiar veículos, se os potenciais compradores decidirem adiar a troca do carro “até que as coisas melhorem”.

O fantasma da crise externa, afetando o até então inabalável sistema financeiro internacional começa a produzir efeitos no plano interno, pela retração dos negócios, elevação no custo do dinheiro e pelo ambiente de incertezas no futuro. Numa economia dependente como a brasileira, os reflexos negativos já são visíveis, embora sem a intensidade do alardeado. Como disse um cronista da Folha, “o melhor já passou”. Agora, se segure, como estão fazendo em Washington os donos do mundo para reinventar o capitalismo.

Esta é a primeira oportunidade de um encontro de cúpula mundial depois que a crise econômica se disseminou. O clube dos países mais importantes do planeta – o G20 – representa 85% da economia global. É claro que diante da proporção do desastre, seria impossível a tomada de decisões estratégicas no curto prazo.O mais importante é que existe uma unanimidade em torno da construção de uma solução coordenada e cooperativa para a mais grave crise econômica, depois da grande depressão de 1929. Lula deve estar exultante ao transitar no nível dos mais célebres estadistas do planeta. Sem medo de ser feliz. É capaz de ensinar ao presidente Bush como o Corinthians saiu de situação semelhante para voltar à elite do futebol brasileiro, com apenas um “Dentinho”. Oh, yeh!

Tem razão o metalúrgico. Até há alguns meses os países emergentes só eram convidados para o cafezinho. Com a crise ganharam novo status. Até a Cristina Kirchner, da Argentina, tem sido admitida para dar os seus palpites na alta roda, por supuesto. Pena que, por enquanto não está valendo nada. Existe um vácuo de poder nos Estados Unidos neste período de transição do governo. É notório que o maior problema do presidente George W. Bush é sua total falta de credibilidade. Hoje ele é um “pato manco”, como os americanos chamam o presidente em fim de mandado. Sua opinião de nada adianta quando se chega à questão central de como regular o mercado financeiro norte-americano e global. Todos querem garantir que situação semelhante não se repita. Ao mesmo tempo, a situação do futuro presidente americano, Barack Obama, não está clara sob esse aspecto. Um dos seus principais assessores adiantou que ele “não apoiará um regulador mundial”.

O mundo vai ter que se reunir novamente, como aconteceu em 1944 em Bretton Woods, nem bem terminada a II Guerra Mundial, para criar o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e estabelecer regras de relações econômicas e financeiras entre as nações industrializadas. Estão em vigor até hoje. Agora será necessário reciclá-las.

Em meio a todo esse tumulto ainda se percebe lampejos de bom senso. Apregoa o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon que qualquer decisão para eliminar a crise não pode minar os esforços globais de combate à pobreza, às mudanças climáticas e à carência alimentar. Em 1929, a única coisa que fizeram para manter vivos os pobres nos Estados Unidos foi a fila do sopão, patrocinada pelo Exército da Salvação.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC