À primeira vista, Antônio Menezes, 34 anos, está longe de lembrar um Willian Wallace - guerreiro do século 14 que lutou contra a dominação inglesa na Escócia, revivido por Mel Gibson no filme “Coração Valente”.
O operador de máquinas, morador da Vila Quaggio, não tem pele clara e tampouco ostenta aquele penteado no estilo “juba de leão”, típico dos membros dos antigos clãs da Escócia medieval. Na verdade, ele é negro, tem cabelos “lisos” um pouco abaixo das orelhas e carrega consigo um sotaque inconfundível, meio puxado para o baiano (e não poderia ser diferente, já que, de fato, ele é nascido na Bahia).
Embora pesem tantos fatores contra, Antônio jura de pés juntos que tem origem escocesa. Inclusive, para fazer jus às raízes de seu “clã”, costuma andar pelas ruas vestido com um saiote quadriculado, tal e qual os moradores da região norte da ilha da Grã-Bretanha (a que ele denomina “Terra dos Gladiadores”).
Se, nas ruas, alguém brinca com a sua “saia”, Antônio logo explica que o uso do “kilt” é uma tradição no país de seus antepassados. Caso a brincadeira ganhe contornos mais sérios (de ofensa, por exemplo), o operador de máquinas, como bom “escocês” que não leva desaforo para a casa, não terá dúvidas em partir para as “vias de fato”. Diz lutar kung-fu e capoeira; corre todas as manhãs. Não fuma nem bebe e costuma tirar as sobrancelhas.
“Faço tudo isso para agradar ao ‘grupo feminino’, que sempre me deu o maior apoio”, afirma. Tempos atrás, Antônio chegou a namorar uma moça, mas a relação não vingou. “Era minha colega de trabalho numa padaria, nos Altos da Cidade. Ela precisou se mudar para outra cidade e nunca mais nos vimos”, conta o operador de máquinas, que costumava ir aos encontros com a “ex” trajado com seu saiote quadriculado.
Antônio, que vive em Bauru desde 1983, diz que começou a se interessar pela cultura do país britânico quando ainda era garoto e morava na Bahia (ele não é capaz de precisar o nome da cidade onde nasceu). “Minha mãe e minhas irmãs costumavam me vestir com o saiote. Diziam que eu tinha um tio escocês, que andava pelas ruas usando trajes típicos”, garante.
“McMenezes” nunca chegou a conhecer o tal parente, mas tomou gosto pelo traje. Ele possui duas versões abrasileiradas: uma comprida, que usa quando está frio, e outra mais curta, reservada para dias de calor. Boina e gaita de fole ele não tem; as botas são parecidas com as usadas pelos amantes da cultura country.
Antônio é um sujeito vaidoso: além de “fazer” as sobrancelhas, ele se depila e gosta de usar penteados estilosos. Todo esse “cuidado de si” não impede que ele tenha gosto pelas atividades mais viris. Adora futebol, cabo de guerra, luta de braço e arremesso de peso (esportes escoceses, segundo ele).
Nos campeonatos da empresa onde trabalha (instalada no Distrito Industrial 1), Antônio afirma ser o artilheiro. “Jogo vestido com o kilt”, garante.
Antônio gosta de ir a bailes aos finais de semana, sempre trajado com “kilt”. “Danço com muita mulher bonita. Nunca saí perdendo para nenhum metido a machão.” Nas ruas, é conhecido como “o escocês”.
Embora se diga evangélico, Antônio tem uma predileção pelo Celtic Football Club, time britânico identificado com os católicos e descendentes de irlandeses. No Brasil, é torcedor fanático do Palmeiras. “Este ano, seremos campeões”, diz.