Desde que a Lei Seca foi sancionada, em 20 de junho, os donos de restaurantes e principalmente de bares sofreram queda no faturamento. O problema, segundo o presidente da Associação Brasileira de Bares de Restaurante de São Paulo (Abrasel-SP), Ricardo Bártoli, veio se somar à costumeira rotatividade no setor, com a abertura e fechamento de estabelecimentos.
A entrada em vigor da nova legislação causou queda de 40% no faturamento, ainda não recuperada, com efeitos sobre a mão-de-obra no setor “O desemprego nos bares chegou a 15%”, informa Bártoli. De acordo com ele, os bares localizados nas regiões com intensa vida noturna, como Moema, Vila Olímpia, Pinheiros e Vila Madalena, na Capital paulista, foram os mais prejudicados, por concentrarem maior fiscalização.
Para o coordenador da área de projetos da pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Claudinei Santos, os bares situados fora desse circuito tiveram a oportunidade de absorver a clientela que já não está tão disposta a ir tão longe para tomar um chope. “Pesquisar junto ao público o que ele quer e perceber o que ele acha que falta são estratégias para que o cliente não sinta vontade de freqüentar outro local.”
Segundo Santos, a explicação para o impacto da lei está relacionada a diversos fatores. “Se o consumidor bebe menos, conseqüentemente ele também comerá menos”, avalia.
Outros itens, segundo ele, que contribuíram para esse quadro foi a perspectiva da chegada da crise econômica americana no Brasil, que deixa os clientes mais cautelosos quanto aos gastos, e também a maior duração do inverno.
Para contornar a situação e tentar atrair novamente os clientes, empresários investem em novos serviços e na divulgação de outros produtos. Entre eles, Santos destaca o “leva e traz”, em que o estabelecimento é responsável pelo transporte do cliente ou, ainda, por meio de parcerias com taxistas, que possibilitam descontos para grupos que optem pelo táxi para voltar para casa.
O professor da ESPM acredita que uma das saídas para os donos de bar seja investir na divulgação das bebidas sem álcool e em pratos mais elaborados. “O público está adquirindo novos hábitos. Com isso, os empresários já conseguiram reverter em 10% a queda do faturamento.”
Ele diz que o desafio agora é trazer mais pessoas, que consumirão mais, para equilibrar o déficit. Para ele, é possível que o faturamento desses estabelecimentos volte a ser como antigamente, mas é preciso incrementar com novas ações.
Transformações
Uma inovação que tem surgido nos bares em São Paulo são os espetáculos, como shows de stand up comedy e peças de teatro. Essa foi uma das soluções encontradas pelo dono do bar Empório 167, localizado no bairro da Mooca, zona leste da Capital paulista, Sérgio Guerrero.
O empresário, que há quatro anos está à frente do negócio, percebeu logo, com a chegada da Lei Seca, uma diminuição no consumo. Com a queda na venda de bebidas alcoólicas, Guerrero investiu em opções como pizza, porções, além de promover leilões. “Planejamos então novas ações para atrair o público, como a apresentação de peças teatrais.”
As terças-feiras no bar viraram noites culturais. A atual temporada é a segunda que a casa apresenta e os planos do empresário são de que ela permaneça em cartaz no bar até o começo do ano que vem. O evento faz com que a casa, que tem capacidade para 240 pessoas, fique lotada.
A saída parece ter funcionado. Já que, segundo Guerrero, muitas pessoas que moram no bairro e que iam para as regiões mais conhecidas da cidade, atualmente têm freqüentado mais o Empório 167. De acordo com o empresário, todas as soluções foram adotadas pouco tempo antes da aprovação da Lei Seca.
“Não prevíamos a lei, mas digo que foi até uma questão de sorte inovar neste momento. As mudanças têm sido responsáveis por cerca de 15% a 20% do faturamento”, aponta o empresário.