08 de julho de 2026
Geral

Calçadão de Bauru perde o “guardião do Centro”

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 2 min

Cercado de netos e bisnetos, morreu na última sexta-feira “seo” Noris Tambara, 96 anos, conhecido como “guardião do Centro”. Para garantir espaço ao aconchego familiar, a cama onde ele permanecia foi colocada na sala da casa, situada na quadra 6 da rua Agenor Meira, onde morava desde quando começou a engatinhar. Para lá levou a mulher, dona Ilda, após o matrimônio. Com ela teve duas filhas.

Pela janela do mesmo imóvel, viu o Calçadão da Batista de Carvalho se transformar no decorrer deste e do século passado. O “observatório”, no entanto, foi interrompido nos últimos quatro anos por conta de lixo acumulado em frente à residência - incômodo intermitente que chegava sempre ao entardecer, a despeito das reclamações a órgãos públicos.

Roteiro de jornal

Nem por isso deixou de constatar e participar de histórias e fatos bauruenses. Leitor assíduo de jornal, por meio dele era instigado a visitar endereços específicos. De táxi, sempre na companhia da esposa, confirmava em “loco” o que havia lido anteriormente. “Há três meses nós saíamos todos os dias. Foram 96 anos bem vividos”, comenta dona Ilda. De acordo com ela, recentemente, as duas principais preocupações do “guardião do Centro” eram continuar em casa e não fazer qualquer dívida.

Durante a entrevista, a viúva mostrou o recibo da última parcela do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), que acabara de quitar.

Padre Cícero

Companheira dele há praticamente 64 anos, tiveram juntos também cinco netos e nove bisnetos. A família misturou sangue italiano (ascendência de “seo” Noris) com sangue nordestino, de dona Ilda. Aliás, ela recorreu a Padre Cícero para solicitar que o sofrimento do marido fosse abreviado. Lúcido, nos últimos dez dias de vida já não falava mais. Apenas ouvia com atenção as histórias da família. “O corpo não reagia mais, velhice”, comenta ela.

Assim que concluiu a oração, foi informada que sua prece havia sido atendida. Ela conta ainda que, por ele, o casal partiria junto desta vida, na mesma data. Dona Ilda conta que o companheiro era bom em tudo o que fazia. Bom músico (tocava vários instrumentos), bom ourives e conduzia com maestria a relojoaria da família. Inaugurada pelo sogro, Albino Tambara, foi o primeiro estabelecimento dessa natureza a se instalar em Bauru.

Coruja

Apaixonado por relógios, já bastante idoso, “seo” Noris levantava-se da cadeira de rodas para ajustar os ponteiros do exemplar mais antigo da casa, decorada por muitos deles. A residência ainda conta com mais de quatro mil imagens de coruja, da coleção da dona Ilda. A elas, a viúva de “seo” Noris pedia proteção. Coincidência ou não, uma semana antes de perder o marido, uma espécie real passou a cantar todas as noites num quintal do imóvel, reservado para 350 vasos de plantas, para onde dá a janela do quarto do casal.

“Agora descobri que não é lenda. É verdade”, conclui. “Seo” Noris foi enterrado no Cemitério da Saudade.