A lingüiça que você degusta no jantar, o frango assado que saboreia no almoço de domingo, o hambúrguer que devora no final do expediente, o salaminho e o torresminho que acompanham a cerveja no happy hour. Como nossa espécie ainda não foi capaz de inventar um meio de criar bifes ou presuntos a partir da água ou do vento, foi necessário que muitos (muitos mesmo) animais morressem para que todos esses alimentos feitos à base de carne pudessem chegar às nossas mesas.
A carne não aparece do nada no açougue: antes de chegar até lá, ela costumava estar confinada em pastos ou cercados, onde passava tardes e mais tardes comendo sem parar, ao mesmo tempo em que filosofava a respeito de sua estranha existência - a existência de alguém que nasceu fadado a morrer para que outros matem a fome.
Algum dia, essa “carne” dotada de pés, olhos e cérebro foi colocada em um caminhão, juntamente com seus pares, e levada até um lugar onde recebeu um choque elétrico ou uma pancada na cabeça.
Inconsciente, essa ainda candidata a “miolo do sete” não teve condições de gritar quando uma faca afiada penetrou seu pescoço e seccionou sua jugular. Tampouco se debateu no momento em que choques elétricos foram aplicados em sua carcaça agonizante para estimular seus vasos sangüíneos a liberarem a maior quantidade possível de sangue.
Antes que você fique com a consciência pesada, é bom lembrar que nossa espécie é onívora, ou seja, precisa comer de tudo (inclusive carne) para obter os nutrientes necessários à sua sobrevivência.
Além disso, saiba que, hoje em dia, o Brasil dispõe de regras rígidas para o abate dos chamados “animais de açougue” - segundo a definição do Ministério da Agricultura, todos os “mamíferos (bovídeos, equídeos, suínos, ovinos, caprinos e coelhos) e aves domésticas, bem como os animais silvestres criados em cativeiro, sacrificados em estabelecimentos sob inspeção veterinária (sic)” -, regras estas que já vêm sendo adotadas pela maioria dos frigoríficos e abatedouros do País há cerca de 8 anos (a Instrução Normativa n.º 3 entrou em vigor em 17 de janeiro de 2000).
Foi-se o tempo das marretadas, dos gritos de dor lancinante e das facadas desferidas a esmo. O que impera, agora, são o asseio, a higiene e os cuidados com o bem-estar dos bichos a serem mortos.
Atualmente, todos os grandes estabelecimentos do gênero instalados em Bauru e região já adotam tais normas, denominadas genericamente de “abate humanitário”. Alguém poderia se perguntar: mas se o bicho terá de morrer, com ou sem dor, por que governo e frigoríficos são tão ciosos com o bem-estar dessas criaturas?
Existem duas razões básicas para adoção de tais cuidados, uma simbólica, outra de ordem puramente econômica. Por um lado, existe a pressão dos defensores dos direitos dos animais (e mesmo pessoas comuns), no sentido de evitar que os bichos sejam submetidos a maus-tratos, ainda que no momento em que serão abatidos.
Por outro lado, os produtores tentam evitar que o animal fique estressado no momento de sua morte, fator que poderia ocasionar perdas na carne, bem como prejudicar a qualidade do produto final. Estabelecimentos que não seguem as normas do abate humanitário não conseguem se habilitar para exportar, especialmente para a União Européia, principal destino da carne hoje produzida no Brasil.
“É difícil pesar qual desses fatores é o mais importante. O certo é que tentamos minimizar ao máximo o sofrimento do bicho que será abatido”, pondera o veterinário Luiz Henrique Cabral da Silva, supervisor de qualidade do Frigorífico Mondelli, instalado em Bauru. Embora reconheçam um certo avanço no que diz respeito à questão dos maus tratos, os defensores dos animais ainda enxergam com reservas o abate humanitário.
“Foi uma evolução entre aspas, que veio à reboque. Na verdade, os produtores não estão preocupados com o sofrimento e a dor dos bichos, apenas querem evitar que o estresse prejudique a qualidade da carne”, ataca Hermmann Schroeder, advogado da organização não-governamental (ONG) bauruense de defesa dos animais Naturae Vitae.
“Não podemos nos esquecer de que existe uma exigência dos consumidores europeus e norte-americanos para que essas normas sejam adotadas. Mas eu pergunto: você acha que o boi não sabe que vai morrer quando entra na fila para ser insensibilizado?”, questiona Fátima Schroeder, presidente da entidade.
Para tentar responder essa pergunta, a reportagem do Jornal da Cidade visitou, na última semana, o Frigorífico Mondelli, para saber como funciona de fato o abate humanitário, experiência que será relatada na página a seguir. Se você se impressiona com facilidade, talvez seja melhor suspender a leitura por aqui.