10 de julho de 2026
Articulistas

Índio - direito à civilização


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Acompanhando o noticiário sobre a reserva indígena Raposa/Serra do Sol e o sensoriamento da floresta amazônica, para localização de índios isolados, ocorre-nos uma indagação: será que os índios devem permanecer na condição indígena e levar muitos milhares de anos, passando por todas as fases de evolução, até chegarem ao nosso estágio de civilização? Isso não poderia ser abreviado? No julgamento do STF, uma advogada índia, Joênia Wapichana, fez a defesa oral da reserva contínua, numa demonstração que está em pé de igualdade com os não-índios. Este e outros casos de índios escolarizados não mostram que a aculturação pode queimar etapas? Por que querer que os índios fiquem vivendo em tabas, caçando e pescando, em vez de praticarem a agricultura e criarem animais de forma racional, de formarem povoados urbanos e aprenderem as técnicas industriais? O índio não tem direito de se tornar civilizado? Isto pode arrepiar antropólogos, etnólogos, sociólogos e outros versados nas ciências sociais, mas é uma indagação de cidadão comum, sem caráter polêmico.

Não se contesta a preocupação com a proteção às tribos indígenas. Ela se justifica pela sua fragilidade em relação ao povo civilizado e pelo passado de extermínio promovido pelos invasores. Fernão Cortez destruiu a civilização asteca, apropriando-se de toda a sua riqueza de prata; Francisco Pizarro dizimou os incas e levou toda a sua riqueza de ouro; os nossos índios, coitados, estavam em estágio primitivo, não tinham riquezas, pois não sabiam trabalhar o ouro, mas porque tinham aparência de fortes, foram dizimados por uma escravidão impiedosa, que aprisionava, de preferência, os já catequizados. Com exceção do Piauí, onde eram aproveitados como vaqueiros, os que foram colocados na lavoura morreram todos. Os seus remanescentes, como os da aldeia de Araribá, levam uma vida de miséria, e os que estão na selva são explorados por garimpeiros, madeireiros, fazendeiros e até por missões religiosas.

Não resta dúvida, portanto, que precisam de proteção, mas a impressão que se tem é que querem preservá-los como eles estão. Será que a autodeterminação, recomendada pela ONU, significa que eles devem se conduzir sozinhos? O escopo das reservas é para que não sejam incomodados e levem a sua vida, ou para dar tempo para que ações civilizadoras possam fazer a sua inserção na sociedade dos não-índios? Ficando livres e não incomodados, a sua evolução não seria apenas acidental, como os poucos que se identificam com a Joênia? Sua gente teria que ir aprendendo a agricultura, a criação de animais, a descoberta dos metais e a fabricação de ferramentas, a descoberta da escrita e assim ir evoluindo pelos milênios afora? Será que todo o avanço das ciências sociais ainda não gerou competência da sociedade civilizada para aculturá-los sem traumas?

É inevitável o avanço da civilização dos não-índios e seu contato com eles. Mesmo os considerados isolados estão espiando as embarcações que cruzam os rios amazônicos e vendo os aviões e helicópteros sobrevoando as matas. Não seria melhor formar agrovilas para uma inserção menos lenta e mais racional? O que a Funai e o Incra não fizerem cientificamente os madeireiros, criadores de bois e plantadores de soja farão como fizeram os antigos colonizadores. As reservas não correm o risco de se transformarem em “zoológicos humanos” para o ecoturismo?

Quanto à perda da cultura – costumes, comida, crenças – os povos civilizados também não foram primitivos e deixaram seus usos e costumes para trás, mantendo as lembranças nos museus e atividades folclóricas? Hoje ainda fica mais fácil registrar e guardar o patrimônio cultural com os recursos de gravação de som e imagem. Não seria mais humano os índios adquirirem as condições de vida dos civilizados e ilustrarem as suas festas populares com danças e amostras de artesanato e comida típica, como acontece com as festas das colônias portuguesa, italiana, alemã, japonesa etc., do que permanecerem no estado selvagem?

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru