08 de julho de 2026
Bairros

Elas romperam limites do trabalho no lar

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Que a mulher conquista aos poucos seu espaço no mercado está evidente, mas de acordo com Lilian Azevedo, pesquisadora, professora e doutorando em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis, essa evolução aconteceu de forma lenta e constante, mesmo antes da Segunda Guerra Mundial, e se acentuou após o seu final.

Azevedo acredita que as inovações vindas após esse período libertaram a mulher da quase “proibição” que havia de trabalhar fora do ambiente doméstico. Outro aspecto que pesou bastante foi a necessidade da complementação da renda familiar. De acordo com ela, no passado a vida das famílias estava principalmente no campo, onde boa parte do que era consumido era produzido ali. A vida urbana mudou isso, assim como o acesso aos estudos. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade – Quais foram as principais evoluções e mudanças geradas pela inserção da mulher no mercado de trabalho?

Lilian Azevedo - Ao falar em evolução, já pensamos em algo que melhorou com o tempo, mas não é bem assim. É fato que muitas mulheres conseguiram romper com uma ‘quase’ proibição de trabalhar fora, isso porque no espaço público, fora do lar, acreditava-se que não estariam protegidas. Mas essa ‘lei’ mais ou menos generalizada nas sociedades patriarcais deixou de ter validade e, por isso, muita gente diz que houve uma evolução. Só que pensemos no outro lado da moeda. Mesmo que as mulheres trabalhem fora, de quem “é” a obrigação com as tarefas domésticas e com os filhos, se ela os têm? A partir do momento em que se diz que a obrigação é de um deles, o outro, se fizer algo nesse sentido, será para “ajudar”. Agora, no mercado de trabalho, as mulheres galgaram posições importantes, sim. Pesquisas apontam que elas têm mais tempo de estudos que os homens. Só que o trabalho, de maneira geral, é muito subdividido em inúmeras especialidades. Para aquelas funções em que se tem como importante a racionalidade, o desprendimento de assuntos pessoais, a capacidade de agir com praticidade e criatividade e até uma certa frieza no trato pessoal, ainda os homens são requisitados. Se uma mulher ocupar este cargo, deverá agir “como um homem agiria”. E isso é muito confuso para mim e para muitas mulheres, que não vêem razão em deixar de agir como são em nome de um preconceito. Se elas não fossem capazes, já teríamos percebido! Agora sobre a remuneração, é interessante observar que os ganhos de uma trabalhadora doméstica ou de funções em fábricas que não exijam especialização são infinitamente menores se comparados às funções que ocupam homens com baixa ou nenhuma especialização.

JC - Pesquisas realizadas por institutos como IBGE e Fundação Seade apontam que as mulheres avançam sem parar no mercado de trabalho, principalmente nos grande centros. Esse avanço também acontece por aqui?

Azevedo - Não sei dizer se essa é a realidade da nossa região. Mas nos cargos de baixa qualificação, sem dúvida, elas estão cada vez mais inseridas. E baixa qualificação não é não ter estudado, mas estar desempenhando uma função para a qual a pessoa não se preparou.

JC – As pesquisas também apontam que as vagas de trabalho para o público feminino estão em expansão. Na sua visão, porque isso vem acontecendo?

Azevedo - Porque elas estão deixando de ficar em casa e optando por pagar para alguma outra mulher fazer o serviço para elas. Porque elas estão estudando mais para dependerem de si mesmas e até que cheguem na profissão que almejam, muitas têm de pagar os estudos. De que forma? Trabalhando no que for possível. Porque com o número de trabalhadores disponíveis aumentando o valor da mão-de-obra cai. É um pouco a lei da oferta e da procura.

JC - Sob o seu ponto de vista, essas mudanças são positivas ou negativas?

Azevedo - Difícil dizer. Para mim, não me vejo como dona de casa. Admiro muito quem gosta e vive dessa forma. Não posso falar em nome delas, mas sei de muitas que se queixam de termos chegado a essa precarização do trabalho feminino e do aumento de problemas de saúde pelo estresse gerado devido ao acúmulo de tarefas e responsabilidades sobre as mulheres.

JC – Hoje, em muitos lares, as mulheres cumprem o papel de chefes de famílias. Esse fato tende a ser ampliado?

Azevedo - Essa mudança foi fruto de um processo histórico. Mas o que manteve os homens como ocupantes das atividades públicas, quero dizer atividades executadas fora do âmbito doméstico, foi uma cultura patriarcal que determinou certas obrigações aos homens e às mulheres, outras, distintas. No caso das mulheres como chefes e provedoras majoritárias, a mudança ocorreu por uma série de fatores. Apontar um apenas não explica corretamente. Mas fiquemos, então, com a crescente urbanização. Cada vez menos pessoas vivendo nas áreas rurais e as cidades com muita gente. No campo, muito do que se consome é produzido lá mesmo. Na cidade, precisamos comprar tudo em mercados e feiras. Para comprar, é necessário dinheiro e para ter dinheiro é necessário trabalhar por conta ou para alguém. Também outros gastos e outras responsabilidades custam dinheiro. Daí fica fácil perceber que mulheres e crianças, por exemplo, passaram a “competir” com os homens os postos de trabalho.

JC – Como fica a questão da mulher com seus múltiplos papéis: trabalhar, ser dona de casa, mãe e chefe de família. O que pode a sociedade contribuir para reduzir o atrito entre as diferentes funções?

Azevedo - Bem, posso dizer porque faço parte disso! E cada vez mais as mulheres estão assumindo postos de “super-mulher”, porque assim o mercado e a sociedade querem. O problema disso pode ser resumido assim: se mulheres casadas ou não, mas que convivem com homens (filhos, pai, irmãos, namorados) sob um mesmo teto, dividirem a renda familiar, quanto mais elas ganharem tanto melhor será para elas e para todos. Se continuarem a ganhar menos, aumenta a sobrecarga dos homens também, para prover o necessário para a sobrevivência de todos. Se houver eqüidade, em tese, a carga se divide. Se as mulheres continuarem a desempenhar tudo isso, terão, certamente, que dar conta da saúde, que poderá ficar comprometida em muito menos tempo. A saída é a divisão de tarefas a partir do reconhecimento de que dentro de casa ou fora dela vivemos em sociedade e que deve haver equilíbrio.