11 de julho de 2026
Cultura

Com potencial educativo, jornal vai à escola

Mariana Uski e Talita Oliveira
| Tempo de leitura: 8 min

Dados da Associação Mundial de Jornais (WAN) mostram que a circulação de jornais no mundo cresceu aproximadamente 2% em 2006, com mais de 510 milhões de cópias pagas em 12 meses. São cerca de 1,4 bilhões de leitores em todo o mundo, que podem escolher dentre os 11 mil títulos impressos diariamente em todo o globo terrestre. Mais de US$ 6 bilhões foram investidos na produção de jornais nos últimos 18 meses. Esses números reforçam o papel central desta mídia na sociedade e a escola não pode ignorar esse meio de educação não-formal.

Os jornais possuem um potencial pedagógico considerável, pois o jornalismo é uma das narrativas principais do mundo contemporâneo, afirma Cláudia Chaves Fonseca, autora do livro Os meios de comunicação vão à escola?. “O jornal em sala de aula incentiva o aluno a se interessar pelo mundo além da família e da escola; pode despertar o interesse pelos conteúdos das outras disciplinas, na medida em que percebe a aplicabilidade do que aprende”.

De acordo com a professora de jornalismo e pós-doutora em mídia-educação pela Open University Alexandra Bujokas os jornais possuem pelo menos três funções pedagógicas. Primeiro, ele é um texto real marcado por características sociais que o educador pode usar na escola; segundo, é uma espécie de texto redigido de forma correta, o que leva os leitores a assimilarem o uso correto da linguagem; e, por fim, proporciona o desenvolvimento de uma abordagem crítica da realidade.

No Brasil, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ) criou um projeto chamado Jornal da Escola (PJE) com o objetivo de promover a leitura e a cidadania e apoiar escolas e famílias na formação de leitores críticos e autônomos. Para a coordenadora executiva do PJE, Cristiane Parente, a informação é capaz de transformar e influenciar a qualidade da educação e a realidade da escola, da família e da sociedade.

De acordo com o site da ANJ, o programa conta com 137 jornais associados, mas é executado por 63 em 19 estados mais o Distrito Federal. Estima-se que até o final deste ano cerca de 1.800.000 alunos se beneficiarão com o programa que atende não somente crianças e adolescentes, mas também jovens e adultos, assistidos por 6.800 escolas e 67 mil professores, além de mais ou menos 100 instituições ou projetos educativos diversos como ONGs.

Cada jornal tem sua equipe de coordenação. Muitas compostas por jornalistas e/ou educadores, que capacitam professores das escolas atendidas para trabalharem com o jornal na sala de aula.

“O programa ideal é aquele em que professores e a equipe de coordenação possuem um calendário de encontros e capacitações ao longo do ano letivo, como visita da escola ao jornal e dos jornalistas e profissionais da imprensa à escola e eventos culturais e educativos para troca de experiências e exposição dos trabalhos dos alunos. Além de proporcionar maior espaço para os alunos nos jornais, seja através das cartas ao leitor, artigos ou matérias para os suplementos infantis”, explica Cristiane.

Em 2002, o Jornal da Cidade, juntamente com a ANJ, implantou o PJE em cinco escolas estatuais da cidade de Bauru (E.E.Ayr-ton Busch, E.E. Ana Rosa Zuicker Dannunzziata, E.E Vereador Antonio Ferreira de Menezes, E.E. João Simões Neto e a E.E. Parque Santa Edwirges) e uma em Piratininga ( Professora Jacira Mota Mendes).

A professora de português da E.E Vereador Antonio Ferreira de Menezes, Leda Aparecida dos Santos, aplica o método há quatro anos. Entre as atividades realizadas na sala de aula, ela ensina aos alunos a leitura crítica e um pouco da estrutura de um jornal.

Leda acredita que ao levar o jornal na sala de aula e fazer os alunos entrarem em contato com o meio incentiva o gosto pela leitura. “Isso acaba interferindo no desempenho, principalmente em português. Eles acabam lendo mais e isso reflete imediatamente, pois quanto mais eles lêem, melhor eles escrevem, melhor interpretam, e isso acaba interferindo para melhor”, analisa Leda.

Mas somente levar jornais às salas de aula é suficiente, ou o preparo dos professores interfere na didática? Para Cláudia, o preparo é fundamental. “Grande parte deles (professores) não lêem jornal. As faculdades de Educação (Pedagogia) precisam se atentar para isso, do mesmo modo que as faculdades de Comunicação Social devem entender o potencial pedagógico do Jornalismo”.

Já para Cristiane muitos professores começaram a trabalhar o jornal  na sala de aula de forma intuitiva. “Conhecer a fundo o veículo e suas potencialidades é levar aos alunos um projeto mais consistente, sem didatizar o jornal ou tornar a sua leitura uma obrigação”, explica. “A leitura deve ser algo que dê prazer ou que o aluno compreenda que pode ser importante na sua vida. Na hora em que ela se torna apenas obrigação, perde o encanto. E perde-se um leitor”.

Alguns métodos contribuem no estimulo à leitura. A começar pelo próprio professor, que deve ser um bom leitor. Outro caminho é dar opções para que o aluno tenha o direito de escolher, seja pela capa, pelo nome do livro ou pelo título da matéria, o que ele deseja ler.

Além de estimular a leitura, uma das perspectivas do projeto Jornal na Escola é tornar cada vez melhores os programas que já existem e proporcionar as discussões sobre sua efetividade enquanto política pública de Estado.

“Não se pode pensar mais a educação sem a comunicação em um mundo em que muito do que sabemos é mediado pelos meios de comunicação. Precisamos aproveitar as possibilidades que a mídia pode proporcionar à educação e aprender a trabalhar com ela”, ressalta Cristiane.

Ela diz que em alguns países como França e Inglaterra, o uso de mídias na escola é uma política pública e que os professores recebem capacitações para isso. E que no Brasil falta uma discussão séria sobre o assunto envolvendo educadores, Universidades, ONGs, a própria ANJ e os ministérios da Educação e da Cultura. Essa discussão deve perpassar a formação dos professores também, nas universidades, que devem contar no seu currículo com uma disciplina sobre mídia e educação. “Nada impede, porém, que mesmo aqueles que não foram formados para o uso de mídia nas escolas, possam, através da formação ao longo da vida, se capacitar”, diz.

Mestre em Comunicação pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru, Giselle Castilho Hilário Bonomo, em sua dissertação de mestrado A função social do jornal impresso na escola como recurso pedagógico de apoio ao exercício da cidadania, afirma que o jornal é um excelente material pedagógico para todas as áreas de ensino. É um meio que desafia a encontrar o melhor caminho didático para usar criticamente em sala de aula.

“Não se pode negar que o jornal possui um grande potencial a ser explorado em sala de aula. A informação obtida por meio de jornal é uma etapa inicial para que sejam feitas, entre alunos e professores, análises mais relevantes. Como formador de cidadãos, o jornal pode auxiliar no confrontamento de temas e reportagens que levem a indivíduos conhecedores dos acontecimentos e de que modo eles podem influenciar o seu dia-dia”, discorre Giselle em sua tese.

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O jornal na sala de aula

• o uso de jornais em salas de aula tem seus primeiros registros no século XVIII, na França, durante a II Guerra Mundial. A metodologia foi desenvolvida pelo educador francês Freinet;

• em 1932 o jornal The New York Times, dos Estados Unidos, passou a distribuir regularmente seus exemplares nas escolas;

• na década de 1970, mais de 350 jornais americanos contavam com professores como assistentes na implantação de programa de jornal na escola. Hoje, mais de 700 patrocinam programas do gênero;

• na Suécia, Dinamarca e Noruega, 100% dos jornais têm programas educacionais. O Japão começou em 1989 com o NIE (Newspaper in Education);

• no Brasil, o uso de jornal em sala de aula vem crescendo. O pioneiro foi o ZH na Sala de Aula, em 1980, e hoje são 63 programas mantidos por iniciativa própria de um jornal ou em parceria com governos municipais/estaduais.

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Rádio e TV também são instrumentos pedagógicos

Além do jornal impresso, o rádio e a TV são meios de comunicação cada vez mais presentes no dia-a-dia das pessoas. Isso faz com que a mídia participe na formação e na educação da população, seja como recurso didático ou como objeto de aprendizagem.

Uma amostra desta influência da mídia pode ser observada no projeto “Rádio e TV Escola: capacitação para o uso de um canal de comunicação entre os membros da comunidade escolar”. Desenvolvido pelos cursos de Comunicação Social da Universidade do Sagrado Coração (USC), o programa envolve cerca de 2000 pessoas, entre alunos, professores e corpo administrativo das escolas E.E Prof. Francisco Alves Brizola e E.E. Padre Antônio Jorge Lima.

Com verba vinda do MEC (Ministério da Educação) e da Unesco, a Francisco Alves Brizola montou uma rádio interna e a Padre Antônio Jorge Lima, que já tinha uma mídia radiofônica, montou um circuito fechado de televisão. Coube a uma equipe da USC ajudar na formação de professores e alunos para o uso técnico e pedagógico dos equipamentos.

Estimular os alunos a ter um bom aproveitamento em seus estudos, ampliar suas habilidades no campo de leitura, escrita e oralidade e fortalecer as ações educativas fundamentadas nos princípios de ética, convivência democrática, inclusão social e direitos humanos são os principais objetivos do projeto.

Os resultados têm sido positivos, pois o envolvimento dos alunos e o interesse dos professores e da direção das escolas são grandes. O projeto é um dos finalistas do Prêmio Cidadania Sem Fronteiras, organizado pelo Instituto da Cidadania Brasil e pelo Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimento de Ensino Superior no Estado de São Paulo (SEMESP).