08 de julho de 2026
Geral

Anfiteatro grego inspirou arquiteto

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

O palco do Vitória Régia, no formato oval, tem 25 metros de extensão e 15 de largura. Ele foi construído em cima de um lago formado pelo represamento das nascentes do Ribeirão das Flores. A impressão é de que o palco “flutua” sobre o lago. Daí o nome “Vitória Régia”.

Elaborado pelo escritório técnico da Prefeitura de Bauru, chefiado na época pelo arquiteto e então vice-prefeito Jurandyr Bueno Filho, o projeto contou também com estudos acústicos. Um deles foi assinado pelo arquiteto Igor Sresnewsky, reconhecido mundialmente por trabalhos desse tipo. A concepção do palco, de seus elementos acústicos e da arquibancada, com capacidade para cerca de 1.800 pessoas, lembra monumentos gregos e romanos.

Aliás, foi após uma viagem à Grécia, realizada em 1971, que Jurandyr teve a idéia de construir o teatro ao ar livre no Parque das Nações, que mais tarde ficaria conhecido como Parque Vitória Régia.

Enquanto a maioria dos turistas preferia à Europa, ele quis ir para à Grécia, conhecer a Acrópolis de Atenas e toda aquela arquitetura antiga. Lá, ele encontrou um grupo de alemães do Instituto de Acústica Aplicada da Universidade de Berlim, que estava lá para pesquisar o sistema de acústica dos teatros gregos. Jurandyr fez amizade com o grupo e entre os locais visitados por eles estava o Teatro de Epidaurus, construído ao ar livre quatro séculos antes de Cristo, que encantou o arquiteto e serviu de inspiração para o projeto do Vitória Régia.

Ele lembra que havia água ao redor do palco e, segundo os alemães, a água reflete o som em locais de clima seco, como é na Grécia e também em Bauru, em determinadas épocas do ano. Jurandyr conta que o teatro tinha acabado de receber uma apresentação da cantora de ópera Maria Callas, sem o uso de microfone. “Eu fiquei encantado com aquilo. A acústica era perfeita”, lembra.

Mas qual o segredo de tanta perfeição? Os alemães descobriram que além da água refletir o som, haviam vasos ressonantes embutidos nos degraus da arquibancada que amplificavam o som. Isso fazia com que mesmo quem estava sentado na última fileira pudesse ouvir música e vozes do palco com uma clareza impressionante.

Pesquisas recentes apontam os assentos de pedra calcária do antigo teatro grego de Epidaurus como o segredo para a ótima acústica do lugar. De acordo com a teoria, esse tipo de material forma um eficiente filtro acústico que abafa barulhos de fundo de baixa freqüência, como murmúrios, e reflete os sons de alta freqüência dos artistas no palco em direção ao público, levando as vozes dos atores até o fundo do teatro.

Jurandyr ficou tão admirado com tudo aquilo que ele viu na Grécia que decidiu construir um anfiteatro com as mesmas características em Bauru. Segundo o arquiteto, até os vasos ressonantes faziam parte do projeto original, mas a pressa em entregar o Teatro Vitória Régia inviabilizou a instalação deles.

A obra começou na administração de Edmundo Coube e terminou na legislatura seguinte, quando o prefeito era Osvaldo Sbeghen. Um terreno que antes não passava de um amontoado de erosões e de uma área alagada acabou se transformando em um dos principais cartões postais da cidade.

“Eu achava que Bauru não tinha uma cara. Salvador tem o Elevador Lacerda, Rio de Janeiro tem o Cristo Redentor e nós aqui no meio desse ‘cerradão’ paulista, eu achava que a cidade tinha de ter uma identidade”, relembra Jurandyr.

E assim nasceu o Parque Vitória Régia. Além de Jurandyr, participaram do projeto Carlos Frederico Gabrielli e Luiz Carlos Mendes. O primeiro ficou responsável pelas fundações do anfiteatro e o segundo, pela estrutura de concreto.

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Entenda a Lei Rouanet

A lei federal número 8.313, de 23 de dezembro de 1991, conhecida como Lei Rouanet, instituiu o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac), cuja finalidade é captar e canalizar recursos para projetos culturais, proteger e conservar o patrimônio histórico e artístico, estimular a difusão da cultura brasileira e a diversidade regional e étnico-cultural, entre outras.

Por meio dessa lei, a empresa que patrocina um projeto cultural pode abater até 4% do Imposto de Renda a pagar. No ano passado, a Lei Rouanet, principal mecanismo de incentivo à cultura do País, movimentou R$ 1 bilhão.

Uma vez aprovada pelo Ministério da Cultura a captação de recursos pela Lei Rouanet, é hora de buscar ajuda junto às empresas ou pessoas físicas. Nada impede que, antes da aprovação ou mesmo de apresentar a proposta, já se inicie o contato com doadores ou patrocinadores em potencial, desde que se tenha em mente, no entanto, que a captação só poderá ser efetuada após a autorização.

Os responsáveis pela obra devem fornecer uma cópia do projeto para a empresa, juntamente com a cópia do Diário Oficial da União, onde consta o valor aprovado, o nome do projeto, número do Pronac e prazo de captação.

O patrocinador deposita o valor do incentivo numa conta corrente especial para o projeto, aberta pelo produtor cultural. Tanto a captação de recursos quanto a execução do projeto devem ocorrer dentro do período autorizado pelo Ministério da Cultura. Se houver necessidade de mais tempo, o Ministério da Cultura deve ser comunicado com antecedência mínima de 30 dias da data de encerramento do prazo.