08 de julho de 2026
Articulistas

A esperança é verde


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O cronista e compositor Antonio Maria, de doce lembrança, dizia ser ele um “profissional da esperança”. A expressão virou peça musical – Brasileiro: profissão esperança – dirigida por Bibi Ferreira. Paulo Gracindo recitava com sua bela voz textos de Dolores Duran e do próprio Antonio Maria. Clara Nunes cantava com aqueles ombros nus, maravilhosos. Nunca me esqueço... Foi em 1974. E parece que foi ontem. As canções e as crônicas eram poéticas e sonhadoras. “Profissão”, no caso, é ato ou efeito de professar, e não simplesmente uma carreira. Seria a declaração ou confissão pública de uma crença, sentimento, ou opinião, ou modo de ser.

Passado tanto tempo, o brasileiro continua professar suas esperanças, apesar das tragédias, da violência e da impunidade. Lembraria ela enésima vez Carlos Heitor Cony, que “cinqüenta anos passados ainda nem sabemos onde estão os ossos de Dana de Teffé”. Prova de que a impunidade vem de longe. A socialite desapareceu, de repente, dos salões cariocas. O sumiço misterioso da viúva milionária rendeu dezenas de reportagens na revista O Cruzeiro. A série culminou com o sensacional julgamento do único suspeito, o advogado Leopoldo Heitor, seu consultor jurídico e sob lençóis. Absolvido por falta de provas, evidentemente.

Quem olha para fora, sonha. É um pensamento de Jung. Quem olha para o interior vai assistir a uma batalha carregada de escolhas, perdas, dores, mudanças, fantasias, desejos e medos, baseados na realidade de cada um. Utilizo-me da tese junguiana para explicar as razões de Antonio Maria, com as quais concordo: o brasileiro vê o que de bom está a sua frente e se abstrai das coisas ruins. Poucos recorrem ao arquivo interior para sofrer outra vez. Talvez esteja aí o segredo de um povo que jamais perde a esperança. Existem dados estatísticos a respaldar essa quase certeza. O Data-Folha acaba de divulgar que 78% dos seus entrevistados acham que vão melhorar de vida em 2009. Outros 27% sequer tomaram conhecimento da propalada crise econômico-financeira mundial, da qual nenhum país emergente consegue se descolar. Muitos até se encheram do noticiário sobre o sobe-e-desce das bolsas, a explosão do dólar frente ao real e as tentativas dos economistas de explicar o que aconteceu. Esses 27% simplesmente resolveram dar um “basta” à maior crise da história moderna. Não vão se envolver com essa chatice. E estamos conversados.

O presidente Lula faz parte dos que não perdem a esperança. Depois da história da “marolinha” decidiu convocar os brasileiros a irem às compras no Natal, sem medo de ser feliz. O povo aplaude. Tanto é que o governo Lula obteve a consagradora aprovação de 70% dos entrevistados, incluindo-se na amostragem membros das classes mais abastadas ou escolarizadas. Nosso presidente, num dos seus últimos discurso às classes produtoras fez uma relação entre a sociedade e a crise, comparando-a com a do médico e o seu paciente:

- Ou você diria ao paciente “sifu”? (no site oficial da Presidência saiu “inaudível”) Se chega dizendo a gravidade da doença acaba matando o paciente.

É preciso manter a esperança dos companheiros. Como é que nós vamos dizer para a moçada que 200 mil empregos foram cortados no país, nos últimos 30 dias. Seria uma crueldade “matar”, ou frustrar 1 milhão e 400 mil jovens que em 2009 irão procurar vagas no mercado de trabalho e “sifu”. Cerca de 1 milhão de empregos não serão criados por causa da crise. Outros milhares de postos de trabalho vão ser cortados. Mas, é preciso manter a chama da esperança, sem a qual fica difícil transferir tanto prestígio à companheira Dilma Rousseff, a chefe da Casa Civil que nunca viu a cor de um voto e sequer ainda apareceu na pesquisa.

A doce e poética esperança também se constrói... Castro Alves, conhecido como o “poeta condoreiro”, porque voava tão alto quanto a grande ave andina, chamou a esperança de “a divina mentira, que deu ao homem o dom de suportar o mundo”. No meu pobre vôo rasante de galinha arrisco a dizer em relação a 2009 que, só esperança não vai bastar: será preciso ter fé. Muita fé.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC