Um problema muitas vezes silencioso vem assumindo proporções cada vez mais aterradoras em Bauru. Todos os anos, segundo estimativas aproximadas da Secretaria Municipal de Saúde, mais de uma centena de pessoas tentam se matar na cidade. Em média, anualmente, 75 pacientes costumam dar entrada no Centro de Apoio Psicossocial 1 (CAPS-1, voltado ao atendimento de adultos que sofrem de transtornos psiquiátricos graves) após atentarem contra a própria vida.
Além disso, outros 45 pacientes (menores de idade) tiveram de ser encaminhados ao CAPS-i (que cuida de crianças e adolescentes com problemas psiquiátricos), entre agosto de 2006 e meados do ano passado, para receber tratamento após tentarem suicídio.
Dessa forma, seria possível afirmar que, ao ano, pelo menos 120 pessoas buscam tirar a própria vida no município. Pode ser, porém, que os suicídios (tentados ou consumados) sejam - para se lançar mão de um clichê dos mais batidos - apenas a ponta do iceberg nessa história. As doenças que fazem sofrer a alma (principalmente a depressão, o estresse e a ansiedade) também vêm avançando de maneira brutal entre os bauruenses.
Prova disso é que, dois anos atrás, o Ambulatório Municipal de Saúde Mental (AMSM) teve de estender seu atendimento para pacientes com depressão leve e moderada por conta do grande crescimento da demanda nessa área. Até então, o serviço era destinado apenas aos usuários encaminhados pelos CAPS.
O prefeito eleito de Bauru, Rodrigo Agostinho (PMDB), reconhece que o setor de saúde mental deverá representar um dos grandes gargalos no começo de seu mandato. “Precisamos reestruturar essa área. Temos de rever, por exemplo, nossa política de cargos e salários, pois não estamos mais conseguindo contratar médicos psiquiatras. Além disso, é necessário implantar um serviço de urgência e emergência para pacientes com transtornos mentais”, avalia.
A reportagem apurou que, atualmente, o Pronto-Socorro Central (PSC) conta com médicos psiquiatras apenas no período da manhã. Caso um paciente venha a sofrer uma crise durante a madrugada, por exemplo, não terá como ser tratado de maneira adequada, já que a Bauru não tem um serviço de urgência e emergência nessa área.
Outro problema sério apurado pela reportagem é a falta nas unidades básicas de saúde (UBSs) de iniciativas voltadas para a prevenção dos transtornos psiquiátricos. Questionado sobre o fato, Agostinho afirmou que a implementação de serviços dessa natureza dependeria da reestruturação da rede municipal de saúde mental.
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Autoconhecimento
O tratamento oferecido pelo Centro de Apoio Psicossocial 1 (CAPS-1) aos pacientes que sofrem de depressão aguda alia o uso medicações à terapia em grupo. “O objetivo do trabalho é oferecer apoio à pessoa, fazendo com que ela aceite que tem o problema e busque meios para tratá-lo”, explica a psicóloga Gislaine Léa da Silva Mondelli.
De acordo com a especialista, na medida em que o paciente adquire conhecimentos a respeito de seu transtorno e de suas próprias emoções, ele passa controlar melhor os sintomas do problema. Além disso, a participação da família seria essencial para a recuperação do doente. “A família é a base de apoio para o doente. Ela tem de estar 24 horas em alerta para garantir que o paciente tome os remédios de maneira correta e para evitar que ele tente fazer algo que coloque em risco a própria integridade”, recomenda.