Aos 12 anos de idade, a bauruense Dora (nome fictício) achou que poderia traçar o próprio destino: disse a si mesma que, quando chegasse aos 26 anos, teria conseguido realizar todos os seus projetos de vida. “Eu me via formada, com um emprego maravilhoso, um marido excelente e filhos lindos - em resumo, seria feliz para sempre”, conta ela, que atualmente tem 40 anos de idade.
Dora só não imaginava que o imponderável entraria em cena para lançar por terra todos seus sonhos. No dia em que completou 27 anos de idade, a jovem se deixou tomar pelo desânimo e mergulhou em um estado de angústia e sofrimento do qual não era mais capaz de se libertar.
“Quando me dei por mim, eu estava solteira, sem diploma e desempregada. Minha vida estava acabada”, afirma. Dora costumava passar dias e noites trancada em seu quarto e evitava dirigir a palavra a quem quer que fosse.
“Eu não aceitava falar com ninguém. Passava o dia todo de pijama”, diz. Nesse período, Dora só saía de casa se isso fosse algo realmente imprescindível - para ir à faculdade, por exemplo. “Em pleno verão, eu andava com os vidros do carro fechados, pois pensava que alguém poderia me estuprar ou mesmo me matar”, conta Dora, que fazia questão de chegar atrasada à aula (bem como sair mais cedo) para não ter de conversar com os colegas.
Se alguém perguntasse a ela se alguma coisa a estava afligingo, Dora respondia que não havia nada de errado em sua vida. Mas, às vezes, quando estava sozinha, costumava cultivar idéias fixas com relação à morte. “Não que eu ficasse imaginando meios de tirar a minha própria vida. Acho que minha formação religiosa não me permitia chegar a esse ponto. Por outro lado, eu desejava muito que Deus me matasse. Queria que todo aquele sofrimento acabasse, pois não há remédio que cure e a dor que atinge a alma”, explica.
Dora conseguiu se livrar das dores que afligiam sua alma graças à ajuda de uma amiga. “Ela já havia comentado comigo a respeito do trabalho do Neuróticos Anônimos (N/A), mas, em princípio, não fiquei muito interessada em conhecer como era. Daí, um dia, comentei com ela sobre tudo o que estava ocorrendo comigo e ela voltou a me convidar para ir a uma reunião”, relata.
Assim que chegou ao local do encontro, Dora foi recebida por membros do grupo e ouviu deles a seguinte frase: “Hoje, você é a pessoa mais importante desta sala”. “Aquilo mexeu comigo pois, até então, eu não havia encontrado alguém que levasse a sério meu sofrimento. As doenças da alma são complicadas de se lidar, pois ninguém consegue enxergar os sintomas. O N/A me devolveu a vontade de viver. O amanhã voltou a existir para mim”, diz ela.
Na medida em que foi participando das reuniões do grupo de apoio, Dora começou a entender melhor seus sentimentos. Atualmente, ela acredita que a depressão que sofreu é decorrência de um traço egoísta de seu caráter.
“Hoje, vejo que meu problema começou quando eu era menina, tinha seis anos de idade, e costumava espancar meu vizinho que era mais novo que eu. Percebo que sempre fui briguenta, intolerante e queria ser sempre a primeira. Eu não aceitava a vida como ela era; desejava que ela fosse do meu jeito”, reconhece.
Atualmente, Dora tem diploma no curso superior de administração. Ela é proprietária de uma empresa na cidade e ainda está solteira. “Tento viver da melhor maneira possível o dia de hoje. Se por, exemplo, algum dia eu vier a conhecer alguém que me faça feliz, até poderei me casar. Mas se isso não ocorrer, não é por isso que irei morrer”, afirma.
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CVV
O Posto Samaritano de Bauru, ligado ao Centro de Valorização da Vida (CVV), busca voluntários para poder ampliar seu horário de atendimento à população. Atualmente, a entidade conta com apenas 12 voluntários e só pode oferecer apoio às pessoas com tendências suicidas nos períodos da noite e da madrugada.
Para que o serviço pudesse funcionar de maneira interrupta, seriam necessários 42 atendentes, no mínimo. Em fevereiro, o Posto Samaritano dará início ao seu curso de formação de voluntários. Mais informações pelos telefones 3011-7736 e 3222-4111 das 19h às 7h.
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Caso recente
No último final de semana, o corretor de imóveis e colecionador de armas Francisco de Assis Eichenberger, 53 anos, cometeu suicídio com um tiro de uma pistola disparado na altura do queixo. Ele estava em seu apartamento, situado no sétimo andar de uma das seis torres do residencial Villa Verde, no Jardim Contorno.
O fato, noticiado pelo Jornal da Cidade em sua edição de domingo, mobilizou diversas viaturas da Polícia Militar (PM) e do Corpo de Bombeiros, além de profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e o padre Roberto Daniel, mais conhecido como Padre Beto. Eichenberger estaria em tratamento psiquiátrico há cerca de 20 anos. O aposentado tinha em sua coleção particular 14 armas e mais de 1.000 unidades de munição.