10 de julho de 2026
Articulistas

‘Com fé, não há perguntas; sem fé, não há respostas’


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A industrialização, incentivada pelo capitalismo, se baseia na idéia da expansão constante do consumo, algo extremamente questionável tanto na prática como na matemática de um planeta finito. Uma economia que produz cada vez mais, continuamente, precisa criar massas de consumidores e estes mesmos assalariados são aqueles que alavancam o consumo. Uma espécie de moto-contínuo impulsionado pela ingenuidade e ganância humanas. Na verdade as coisas só são boas em dada medida. Mais ou menos representará sempre alguma forma de disfunção e de dor. A sociedade norte-americana não só teve dificuldade em compreender isso, mas, também, em entender o processo pelo qual as coisas podem ser mensuradas. Um antigo ensinamento do deserto diz que, quando a carga ameaça a tombar do lombo do camelo, basta uma pessoa para endireitá-la. Uma vez que tombe, serão necessárias quatro ou cinco pessoas. O “tombamento” reflete uma saturação que modifica as escalas de impacto e as conseqüências. Saber o tamanho das coisas e conhecer a natureza das medidas é fundamental. Conta-se que o renomado rabino Hafetz Chaim certa vez encontrou um conhecido na rua e perguntou-lhe como estava. O conhecido respondeu: “bem... mas, não faria mal estar melhor!”. Ao que o Chaim retrucou: “como você sabe que não faria mal?”.

A crise que presenciamos e vivemos, provocada pelo excesso no consumo, marca uma inflexão. Se os séculos XIX e XX foram regidos pelo emprego e pelo salário, o mercado agora passará, mais acentuadamente, a criar formas para se livrar dos assalariados, priorizando a automação, o controle informatizado e transações comerciais on-line. Por conta disto, a empregabilidade se dará em áreas nas quais temos excelência e podemos levar vantagem em relação às máquinas: as áreas da dúvida e da incerteza.

O mercado de trabalho vai valorizar aquele que vive o risco calculado e toma parte nele. Aquele que, em função de sua experiência, cria pontes entre certezas entrecortadas por dúvidas. Aquele que se envolve, se integra, tem visão e inspira confiança onde há o risco de insucesso. Aquele que não só atua intelectualmente, mas se envolve emocional e espiritualmente.

O mercado de trabalho vai valorizar, cada vez mais, o “intuitivo”. Todo ser humano possui a intuição. Ela é inerente à nossa estrutura e a usamos, inconscientemente, o tempo todo, de múltiplas maneiras. A intuição não é o oposto da lógica - é uma forma abrangente de entender a vida e já recebeu muitos nomes: criatividade, evolução, transformação e até mesmo, iluminação. Militando há muitos anos na formação de Engenheiros, tive a oportunidade de presenciar, inúmeras vezes, alunos com desempenho escolar abaixo da média se tornarem profissionais bem sucedidos. Isto acontece porque eles acabam compensando a pouca capacidade de realizar relações racionais com a capacidade de manter relações físicas, afetivas e espirituais verdadeiras.

São aqueles ex-alunos que sabem que o mundo é grande; que existem nele quase sete bilhões de vontades, opiniões e ambições; que cada pessoa tem uma história, constituição, cultura, caráter e que a vida é trabalho, interação, ou seja, é ação e reação acontecendo a todo instante. Por isto só se ofendem com os próprios erros; sabem que o orgulho faz a crítica exasperante e a vontade própria faz o ato do outro ofensivo. Com certeza eles alcançaram o sucesso porque aceitaram o diferente, o contraditório, o ambíguo, o diverso, o singular. Aceitaram o dualismo porque ele é inevitável; ele divide a natureza de maneira que cada coisa é apenas uma metade e aponta para outra coisa. Porque sabem que todo doce tem sua parte de amargo e a ânsia pelo doce é o mais amargo dos destinos. Os homens perseguem o sucesso; gostariam de ter riqueza, poder e fama. Pensam que ter sucesso é conquistar um único lado da natureza - o doce sem o amargo - mas assim como não podemos ter o interior sem o exterior ou a luz sem a sombra, não podemos dividir as coisas e obter só o que é bom.

Quanto maior o apego à materialidade, maior o senso de si; quanto maior o senso de si, maior o medo e o terror pela perda de nós mesmos e quanto maior o terror, maior o sofrimento. Qual seria, então, a saída para este círculo vicioso? A resposta foi dada pelo ilustre Professor e Jornalista Zarcílio Barbosa em seu artigo “a esperança é verde”, publicado neste último domingo (07/12): ter fé, não só em 2009, mas no futuro de longo prazo. Precisamos de fé, pois, mais uma vez parafraseando Hafetz Chaim: “com fé, não há perguntas; sem fé não há respostas”. Eu ainda acrescentaria a recomendação de nos livrarmos do drama do “eu” e do “meu”.

Outra fonte de sofrimento está em tentar entender o “por quê?” isto está acontecendo.

Devemos aceitar que as coisas podem acontecer conosco; a vida, portanto, deve ser vivida não a partir da perspectiva do “por quê?”, mas sim do “por que não?”. “Por que não?” não é ausência de propósitos, mas é o propósito que nos liberta para lutarmos pelo presente e pelo futuro, em vez de fazer com que nos percamos no imobilismo de entender o passado. Quando vivenciamos o tempo presente com toda sua potencialidade, adquirimos um bem-estar próprio de quem não vive o temor da finitude. Se abdicarmos da potência do presente, o futuro não será um sonho, mas um pesadelo. Portanto, sempre que a palavra “quando?” for usada para aquilo que é fundamental em nossas vidas, só existe uma resposta: “agora!”.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru