10 de julho de 2026
Articulistas

28ª Bienal: das certezas às dúvidas


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Quase Bienal, ou a arte é o mundo? Todos sabem definir quase, bienal, mundo. Mas, o que é arte? Desde Platão, muitas páginas foram escritas definindo arte. A bem da verdade, não houve nenhuma conclusão, posso afirmar. Aqui, pretendo falar da mostra Em Vivo Contato, cuja inauguração deu-se em 26 de outubro. De quarentena, ela vai durar 42 dias. O curador Ivo Mesquita levou nove meses para gestar e parir a segunda mais importante exposição do mundo, mas a criança está na UTI. Ela é descendente do otimismo reinante em 1951, quando Yolanda Penteado e Ciccilo Matarazzo criaram a mostra brasileira, nos moldes da de Veneza. A Bienal do Vazio, ou melhor, a falta dela, é fruto dos desmandos que permearam as últimas administrações da instituição, porém o texto não pretende tocar em assuntos econômicos, vai falar da exposição.

A proposta é parar e pensar. Trata-se de uma reflexão em busca de soluções. Uma exibição pública de arte, sem obras, daí o rótulo de Bienal do Vazio. Acompanhei os debates pelos meios de comunicação antes de visitá-la. O térreo e o primeiro andar transformaram-se em praça, local conhecido antigamente como ágora. Ali se discutia o destino da Grécia, sendo um espaço democrático, gerador de energia. Aqui tem a mesma finalidade. O vazio fica no segundo andar e conota o ato suspenso, um gesto radical de análise da superação do modelo bienal e de seu papel no momento atual. Para os organizadores, esse vazio é um incubador de processos criativos surgidos da intuição estimulada na praça e da razão desenvolvida no terceiro andar, onde está a memória da fundação. A biblioteca, os arquivos, as coleções de catálogos historiando exposições anteriores, enfim, um lugar de pesquisa e meditação sobre figuras fixadas em suporte material. Agora, as vestes pintadas por Leonardo para corpos dionisíacos se desenham no vazio, ausentando-se despidos e sem luzes. A questão financeira vivida pela instituição é local. Porém, a Bienal aponta para uma crise pressentida pelas vanguardas quando a fotografia surgiu. Mesmo perante a afirmação de que as atividades artísticas e tecnológicas caminhavam juntas, os artistas reagiram, levando Hegel a dizer que a arte perdera a função. Assim, fica no ar uma pergunta: qual será o futuro da produção artística nesse momento de desmaterialização da arte?

O retorno ao passado preconizado pela Fenomenologia ou o transporte à era da simulação com figuras programadas nos computadores? A resposta não precisa ser a eliminação dessas diferenças, pois arte e técnica estão juntas desde os primórdios da civilização. Talvez, a devolução da antiga inocência às imagens a partir do gradiente zero postulado por McLuhan seja uma solução.

A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC