Há 98 anos, dois eventos mexeram com a história do recém-emancipado município de Bauru. Primeiro, o assassinato de um de seus mais importantes pioneiros, o coronel Azarias Ferreira Leite; e o segundo, a transferência da comarca de Agudos para a nova cidade. Os dois acontecimentos estão intrinsecamente relacionados: Azarias foi morto por defender o remanejamento da divisão judicial para Bauru e a mudança da jurisdição foi precipitada pelo infortúnio do coronel vitimado.
De fato, o atentado contra a vida de Azarias Leite se impõe como um marco na vida da cidade. Homem de notável caráter e de indiscutível presença de espírito, ao lado de seu sogro e tio, Araújo Leite, ele anteviu o desenvolvimento da região noroeste bandeirante. Celebrado como um dos fundadores da cidade, Azarias é hoje uma pálida lembrança dos tempos gloriosos dos conquistadores dos sertões paulistas.
Seus restos mortais repousam num jazigo mal conservado na rua principal do mais importante cemitério da cidade. Como o seu próprio mausoléu, sua memória também está desgastada e precisa ser revitalizada. Pode ser que o dinamismo da sociedade bauruense tenha solapado a modorrenta nostalgia da história de seus fundadores.
Mas, a memória de Azarias Leite, assim como de tantos outros pioneiros, merece respeito. Não pode, simplesmente, ser relegada aos amarelados escaninhos da burocracia. Escrevo isto porque tentei um contato com a Secretaria Municipal de Cultura para saber se a cidade prepara algum tipo de ato cívico pelo transcurso do centenário da morte deste reluzente vulto da história bauruense. Estou há dias aguardando um contato telefônico com um ‘certo’ senhor Henrique, diretor de projetos do órgão.
Ele simplesmente não retorna as ligações. Não dá a mínima importância ao questionamento feito por um dos descendentes diretos de Azarias e Araújo Leite. Talvez porque não reconheça a relevância histórica deles. Ou ainda, porque, de fato, Bauru não tenha se preparado para reverenciar a memória de um de seus fundadores, no centenário de seu falecimento.
De qualquer forma, registro minha indignação para com as autoridades da cultura municipal, especialmente com o senhor Henrique, pelo descaso com que trata a ancestralidade política deste município. Diga-se de passagem, nenhum dos descendentes diretos de Azarias reside mais em Bauru.
Também desconheço o fato de qualquer representante da Prefeitura ou da Câmara Municipal promover contato com a família Ferreira Leite. Visto que Azarias ainda tem um neto vivo e a última de suas filhas faleceu há pouco mais de 10 anos.
Esquecer as lutas do passado, que fizeram de Bauru a cidade próspera que é hoje, significa o mesmo que apagar da memória a bravura de seus pioneiros. Olvidar o sacrifício de Azarias Leite é o mesmo que assassiná-lo uma segunda vez...; é desferir contra ele um outro tiro, agora atentando contra sua trajetória de luta e a esperança que ele representou para toda uma geração de bauruenses.
Com seu sangue, há 98 anos, Azarias lavrou essa terra para cultivar uma ‘Cidade Sem Limites’. Então, que não haja limites para lembrar sua obra.
Por isso, registro também neste artigo minha intenção de redigir um documento biográfico sobre a vida e a morte precoce deste bravo guerreiro dos tempos imemoriais da fundação de Bauru. Um texto sem rodeios, sem meias palavras e sem ufanismos. Ou seja, uma biografia definitiva deste homem que fez história.
O autor, Paulo Leite, é escritor, jornalista e bisneto de Azarias. Foi secretário de Estado de Comunicação Social do Governo de Mato Grosso, secretário de Imprensa da Assembléia Legislativa de Mato Grosso e atualmente é consultor do Gabinete do senador Jayme Campos