Botucatu - Conhecer os tipos de vertebrados que vivem às margens do ribeirão Tanquinho, em Botucatu (100 quilômetros de Bauru). Essa foi a proposta de trabalho de Bárbara de Mendonça Heiras para concluir o curso de ciências biológicas da Unesp de Botucatu.
Orientada pelo professor doutor Helton Carlos Delicio, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu, Bárbara “mapeou” 69 principais espécies de vertebrados existentes no ribeirão, que nasce dentro do perímetro urbano de Botucatu e percorre uma área de aproximadamente 2.500 metros de extensão – 12 quarteirões da cidade. A pesquisa ocorreu entre os meses de fevereiro e outubro deste ano.
O trabalho não teve financiamento direto de agência de apoio à pesquisa, mas resgatou a experiência de Bárbara, que estagiou na ONG SOS Cuesta de Botucatu. A organização não-governamental, entre 2007 e 2008, recebeu financiamento da Petrobras para caracterizar o ambiente no ribeirão Tanquinho e recuperar o potencial hídrico-florestal. Bárbara aproveitou a oportunidade e fez a coleta de dados para a monografia dela. Os principais vertebrados estudados foram os anfíbios, répteis, peixes, mamíferos terrestres e voadores. Os animais foram observados no local por meio do registro de vocalizações, fotografias e guias de identificação. Outra contribuição para o estudo foram as entrevistas com 154 moradores do entorno do rio, dos quais a maioria afirmou ter visto os animais no local. A verificação dos anfíbios e morcegos ocorreu no período noturno por causa dos hábitos desses vertebrados.
No total, os 69 tipos de animais e espécies encontrados foram: cinco espécies de anfíbios (rã-pimenta, cobra cega, sapo e dois tipos de pererecas), cinco espécies de peixes (cascudo, lebiste, lambari, camboja e tilápia), seis espécies de répteis (calango, cágado e cobras jararaca, cascavel e d’água), sete espécies de mamíferos (dois terrestres e cinco morcegos) e 46 espécies de aves, como o verão e o sanhaço cinzento. Para o professor Helton Delicio, o estudo mostrou que o trabalho de reflorestamento feito pela ONG SOS Cuesta contribuiu para o retorno da fauna ao ambiente ribeirinho. “O resultado para nós foi surpreendente e superou nossas expectativas, pois a diversidade de fauna foi muito grande, principalmente em se tratando de um ambiente totalmente inserido no perímetro urbano”, relata. “A diversidade encontrada foi muito grande para uma área pequena. Percebemos que o local hoje é um refúgio para animais”, completa Bárbara.
A concluinte do curso de ciências biológicas explica que são raros os trabalhos de levantamento de fauna em áreas urbanas, da forma que ela propôs. “A importância deste levantamento se deve ao fato de que o ribeirão está inserido no perímetro urbano e a caracterização de sua fauna servirá para a prática de educação ambiental junto às escolas do ensino fundamental, além de aumentar o conhecimento sobre a fauna da região de Botucatu”, diz Delicio.
Os resultados do trabalho serão apresentados à população que reside no entorno do ribeirão. Há também a proposta de se produzir uma cartilha de educação ambiental a partir da caracterização da fauna realizada.
Passado
O ribeirão Tanquinho era um esgoto a céu aberto até 1998. Em 2001, quando começou o reflorestamento às margens do rio, houve uma mudança brusca nas características ambientais do local. Hoje ainda há registros de despejo clandestino de esgoto ao longo do ribeirão - em cerca de 20 pontos. O estudo da ONG SOS Cuesta também constatou a presença de grande quantidade de lixo ao longo do ribeirão.
No início deste ano, dez anos depois, a Sabesp instalou emissários ao longo do ribeirão e o esgoto parou de ser lançado diretamente no córrego. Daí em diante, o ribeirão passou a ter uma recuperação gradativa, principalmente na qualidade da água.
“Nos primeiros quatro quarteirões havia um pasto sujo, com vários materiais de construção e entulhos em uma área degradada. O reflorestamento melhorou muito a área. Agora podemos constatar a presença de muitas árvores e principalmente o retorno da população ao ambiente que utiliza as trilhas para lazer. Nos outros oito quarteirões, por apresentarem uma declividade maior do terreno, há presença de mata nativa, mas com forte ação do homem”, explica o professor Helton.