Helena Morley é uma menina que possui um talento muito especial. Apesar de viver em uma realidade pobre na cidade decadente de Diamantina, procura fazer das dificuldades da vida alimento para seu espírito. Helena desenvolve uma personalidade forte lutando para criar sua liberdade e manter autenticidade. Para isso se utiliza da arte de escrever criando, assim, um diário muito especial, no qual relata não somente seus sentimentos, mas também as virtudes e a mesquinhez tipicamente humanas. O diário de Helena é um exercício de contemplação que esta menina quase moça realiza para compreender seu monótono mundo e transformá-lo em um universo criativo e inovador. “Vida de Menina” de Helena Solberg é a transposição deste diário, talvez o último valioso diamante lapidado no solo mineiro de Diamantina.
O diferencial entre os seres humanos e os outros seres vivos de nosso planeta é o ato de pensar. Através deste, construímos nossa história, interagimos com o nosso mundo e melhoramos ou pioramos nossa qualidade de vida. Porém, por ser extremamente óbvio, nos esquecemos de refletir sobre o próprio ato de pensar e não percebemos sua importância. O pensar é, na verdade, o ato de penetrar o real, ou seja, a forma de adentrar conscientemente o espaço vivencial do ser humano que chamamos de realidade. Penetrar o real significa ir além do imediato, além das aparências, deixar a superficialidade das coisas se aprofundando no conjunto das relações e “des-cobrindo” as diferentes conexões existentes na realidade. Em outras palavras, aquele que procura realmente conhecer o contexto em que vive busca atingir o que filósofo alemão Josef Pieper, certa vez, escreveu: a abertura para a totalidade, “offenheit für das Ganze”. Em primeiro lugar, estar aberto para a totalidade significa ter a capacidade de enxergar o mirandum, ou seja, aquilo que suscita admiração. Perceber no comum e no diário aquilo que é incomum e não-diário. Nós vivemos em um mundo que nos enche de informações e de compromissos, fazendo com que vivamos uma vida acelerada e, portanto, superficial. Este ritmo nos dá a impressão de que o tempo passa muito rápido e o pior, nos desvia da contemplação. No ritmo acelerado de nossa sociedade deixamos de contemplar o que há de maravilhoso em nossa vida e nos aliena de nosso próprio cotidiano. Sentimos a sede de descoberta de algo que nos desperte admiração, mas como estamos desligados de nossa própria realidade, vamos em busca de emoções extravagantes e coisas mágicas. Porém, o mirandum, o admirável, está à nossa frente. Quantas vezes nos esquecemos de olhar para o céu e contemplar as estrelas, a lua, os pássaros, a criança. Muitas vezes, deixamos de observar os alimentos que possuímos em nossa própria mesa, a atividade que realizamos em nosso trabalho e a convivência com os amigos. E, por fim, deixamos de contemplar o fato mais admirável de nossa existência: o fato de termos vida. Quem realmente pensa vivencia a redescoberta do mais simples, do mais humano, da verdade mais pura das coisas. “O belo é tão útil quanto o útil. Talvez até mais” (Victor Hugo).
Mas admirar o maravilhoso em nossa vida não significa ainda buscar a totalidade. Contemplar a realidade é, também, redescobrir a capacidade de se escandalizar. A nossa realidade não é composta somente de coisas boas e maravilhosas. Quem vive simplesmente agradecendo a Deus o fato de estar vivo e admirado com a beleza da vida, ainda está longe de alcançar a totalidade que o ato de pensar pode nos oferecer. Quem deseja conhecer sua realidade se questiona sobre os sofrimentos da vida e se escandaliza com muitos fatos cotidianos. A paisagem social de nossa cidade e de nosso País nos anestesia e nos faz acostumar com coisas absurdas. Assim, perdemos a santa capacidade de repudiar acontecimentos e situações que impossibilitam a própria vida. Deixamos de perceber que muitas pessoas que trabalharam para que possamos ter o alimento em nossa mesa não podem tê-lo em suas próprias mesas, nos escandalizar pela situação de pessoas que não possuem a chance de ter um estudo, um trabalho e sustentar suas famílias, nos escandalizar com a situação de pessoas que vivem na solidão. Por fim, deixamos de nos escandalizar frente a pessoas cuja condição de vida não é motivo de admiração, mas o fato de estarem vivos é, na verdade, um sofrimento para elas mesmas ou para aqueles que as circundam. A forma mais comum de alienação revela-se na fragmentação da realidade. Nos fixamos no maravilhoso da vida e deixamos de perceber o sofrimento ao nosso lado ou nos mantemos no lado negativo da vida, sem perceber que ela pode ser algo muito maravilhoso. O viver verdadeiramente ativo possui seu início na contemplação da totalidade da vida. “O poder de síntese é a alma da inteligência” (William Shakespeare).