Eu me apaixonei no momento em que você ajeitava os óculos. Essa é a primeira – e única – respostas que me vem à cabeça caso alguém do Instituto Universal de Dúvidas Bizarras (IUDB) um dia me questione. Sim, porque há um campo de pesquisas absurdamente vasto para qualquer tipo de assunto – até mesmo para a falta dele.
“O que chama a sua atenção numa pessoa?”. Bem, joanetes também despertam a atenção de inúmeros seres, embora não muito apaixonadamente, creio eu. Mas, como diziam, foi aquele o exato instante e o modo com que você ajeitou os óculos de leitura, pressionando firme e pacientemente o indicador por entre os olhos apertados e dispersos, como os de alguém que olha mas não vê.
Hoje, já olhando de longe, vejo que eu me apaixonei por sua distração. Talvez porque os distraídos sejam uma classe praticamente extinta – alguém aí consegue apontar para outrem que não esteja se auto-policiando neste exato ou conseguinte instante? Somos todos um bando de justificáveis paranóicos, isso sim.
E também contraditórios, afinal, você era um distraído que lia com devota atenção. Não mais que mera testemunha ocular, eu observava de perto, divertida e curiosamente todo o seu distanciamento e conseqüente fragilidade, por favor, não olhe para cá.
Preferi não dizer nada e especularia por séculos sobre o que aconteceu por trás das suas lente na tarde em que se dedicou, crédula e placidamente, cega atenção a um pedaço qualquer de papel, com têmporas e testas lívidas, sem vinco ou linha que denunciasse quaisquer entrelinha do pensamento. E foi exatamente deste modo que eu desejei, a partir daquele instante, que você olhasse para mim.
De H. para A.