09 de julho de 2026
Articulistas

Diante da mais sublime página


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Novamente a Igreja vai reviver na sua Liturgia o acontecimento histórico do Natal ou nascimento de Jesus na pequena Belém da antiga Palestina. Os profetas predisseram esse acontecimento e com ele sonharam. Miquéias citado por Mateus, dirá: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um príncipe que será o pastor de Israel, meu povo.” (Mt 2, 6)

Ageu anunciará com alegria: “Eis que vem o desejado das nações; ele encherá de glória a casa do Senhor.” (Ag 2, 8). Isaías, chamado de quinto evangelista, vai exclamar exultante: “Um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado!” (Is 9, 6) Essas palavras constituem a antífona ou abertura da solene Missa da Noite de Natal. Lembrando Isaías, escreve Mateus: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa: Deus está conosco.” (Mt 1, 23)

Como são belas as palavras de Balaão, esse simpático personagem do Antigo Testamento : “Oráculo do homem que tem os olhos abertos... Eu o vejo, mas não agora; eu o contemplo, mas não de perto. Uma estrela sai de Jacó e um cetro se levanta de Israel!” (Nm 24, 15-17ª). Essas e outras profecias messiânicas se realizaram numa noite, certamente a mais bela de todas, quando “chegou a plenitude dos tempos”.

O evangelista médico, Lucas, deve ter ouvido de Maria o relato que ele faz dessa noite, com muita simplicidade: “E Maria deu à luz o seu Filho Primogênito; ela o enfaixou e o colocou numa manjedoura, pois não havia lugar para ela e José na hospedaria de Belém... Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho...E um Anjo disse aos pastores: Eu vos anuncio uma grande alegria que será para todo o povo: Hoje na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador que é o Cristo Senhor.” (Lc 2, 7-11) A esses pastores, pessoas humildes e marginalizadas coube a honra da primeira visita ao recém-nascido Salvador

João, o evangelista teólogo, no prólogo de seu evangelho escreverá, creio eu, num gesto de adoração: “E o Logos, O Filho de Deus se fez homem e levantou sua morada entre nós.” (Jo 1, 14). Nossos olhos maravilhados contemplam não só o Menino Deus recém-nascido, mas também esse casal israelita, Maria e José, que estiveram envoltos no mistério da concepção divina do Menino. Num ato de fé tão grande como o do patriarca Abraão, eles acreditaram e pronunciaram aquele SIM pelo qual nos veio o Salvador, inaugurando uma nova fase da história da humanidade.

Estamos, sem dúvida, diante da página mais sublime da história. Página conjuntamente escrita e assinada por Deus, por Maria e José! Deus identificou-se conosco, assumindo nossa natureza humana, vivendo toda nossa realidade existencial, igual a nós em tudo, exceto no pecado, incompatível com sua natureza divina. Sua encarnação é a dignificação máxima da criatura humana.

Filho de Deus, Filho de Maria, tornou-se nosso Irmão Deus. Veio morar entre nós, veio caminhar conosco. Por tudo isso Natal deve ser festa espiritualmente alegre para todos, pressupondo também o bem estar material. Paz (shalon), anúncio da Noite de Natal, significa o conjunto de bens espirituais, morais e materiais que tragam aquela felicidade que é possível também na terra.

Natal não conjuga com a fome, a miséria, as violências, o egoísmo, as injustiças, a exploração do homem e da mulher. Natal opõe-se ao consumismo que cria necessidades e hábitos descomedidos e desnecessários, num clima de ofegante ansiedade e preocupação. Natal não coaduna com as frias leis do mercado que, na atual conjuntura social, está gerando uma grave crise econômica mundial.

Venha a mais sublime página da história questionar, iluminar e transformar as páginas da história de cada pessoa, de cada família e de toda sociedade. Essa página é viva e eficaz, está sempre aberta diante de nossos olhos. Não é difícil lê-la, memorizá-la e vivenciá-la.

O autor, frei Lourenço Maria Papin, é colaborador de Opinião