08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Minha irmã Clara


| Tempo de leitura: 3 min

Quase todos os dias abro este jornal e me deparo com homenagens escritas, por familiares e amigos, a um ente querido que partiu. Sempre achei estranho, mas agora entendo o porquê... Deve ser (na maioria das vezes) uma forma de revelar todo aquele sentimento que ficou guardado, não foi dito, pois ainda achamos que haverá uma oportunidade melhor...

Por isso, querida irmã, antes da sua partida eu quero revelar o quanto eu te amo, sempre amei e continuarei amando enquanto viver. Lembro do dia que você nasceu. Apesar de meus 4 anos lembro muito bem da mamãe sentada tranqüilamente na cozinha tomando café, enquanto o papai apavorado tirava o carro da garagem para levá-la para a maternidade.

Depois me lembro de você no bercinho, e de todo ciúme que eu tinha a ponto de cobrir seu rosto com um travesseiro para me “livrar” de você. Sempre me arrependi disso, e muitas vezes pedi seu perdão e você só sorria...

Por vinte e três anos vivemos separadas, mas só fisicamente, você em São Paulo e eu aqui em Bauru. Mas sempre nos comunicávamos e não raras vezes nos visitávamos para matar a saudade. Ultimamente, quantas cartas, as suas tão criativas traziam um pouco do seu jeito de menina mas tinham a profundidade de quem parece que já sabia o que a vida lhe reservava.

Seu sonho era vir morar aqui. Morarmos perto, curtirmos músicas, filmes, receitas, livros, bordados e tudo mais. Nossos gostos sempre se casaram mas as dificuldades eram grandes, conciliar nossos sonhos com o de outras pessoas parecia impossível. Mas o destino através da dor, agora nos uniu, e você veio para perto de mim, infelizmente de uma forma que nunca imaginávamos, precisando de muitos cuidados, numa cadeira de rodas. Mas assim mesmo experimentamos a alegria de uma única vez sairmos juntas, passearmos, jantarmos... Você parecia uma criança e eu achava que iríamos superar tudo. Fizemos muitos planos, íamos até cursar a faculdade da 3ª idade.

Mas, mais uma vez foi só um sonho. Sua saúde piorou e neste pouco mais de um ano que estamos juntas eu já não te tenho mais... Olho para você e só reconheço o teu olhar, mas sei que você não me vê, mas falo, canto, rezo baixinho no seu ouvido, mas sei que você já não me escuta. Tantas coisas para dizer, mas você já não fala mais. Este corpo que abriga este olhar tão querido já não é mais seu, você não tem domínio de mais nenhum gesto, mas mesmo assim eu te arrumo, cuido da sua aparência, corto seu cabelo, faço tuas unhas, até passo esmalte, perfume, batom... Você é tão lindinha. Tenho a satisfação de pensar que você está gostando.

Mas hoje eu cometi “um pecado” e por isso te peço perdão... Eu pedi a Deus que já que não há aqui na Terra nada mais que possamos fazer, que Ele te leve, sem dor, sem sofrimento, que Ele te liberte... Agora estou arrependida e se Ele te levar mesmo?... O que eu vou fazer, já não me resta mais nada, minha vida é hoje o teu redor como um velório constante onde não há mais esperança. Querida, apesar de tudo, eu adoro que você esteja aqui e que eu possa cuidar de você. Faço isto com o maior amor e agradeço a Deus pela oportunidade de poder serví-Lo através de você... Será que isto é egoísmo?... Já me disseram isto... Será? Querida, só Deus sabe até quando, mas eu quero que você saiba que enquanto eu tiver saúde, vida, estarei a seu lado. Sei que vou sofrer mas terei a satisfação desse amor vivido... Que Deus nos abençoe... Que Ele nos dê muita coragem e te receba com muito, muito amor. Sempre sua, Cláudia.

Cláudia Cabrera Maldonado