Esqueça aquela imagem que as pessoas costumavam ter dos adolescentes: de que eles passavam seus dias sem ter nada de importante para se preocupar, dividindo seu tempo entre escola, amigos e um bocado de coisas fúteis para matar as horas. Nos últimos anos, a depressão - distúrbio que costuma ser associado aos adultos atarefados, ansiosos e estressados - tem avançado entre os indivíduos mais jovens.
Estudo realizado por pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), do Instituto Fernandes Figueira (IFF) e do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec), três unidades da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro, constatou que 10% dos adolescentes apresentam sintomas de depressão.
A pesquisa avaliou 1.923 alunos, com idades entre 11 e 19 anos, que cursavam da 7.ª série do ensino fundamental ao 2.º ano do médio em 38 escolas públicas e particulares do município de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
A incidência do problema seria mais comum entre as meninas (13% delas apresentariam sintomas do transtorno, contra apenas 6,3% dos garotos), entre adolescentes que sofrem de baixa auto-estima (6,4 vezes mais chances) e entre aqueles que se dizem insatisfeitos com a vida (3,2 vezes mais possibilidades).
Adolescentes que sofreram violência física severa por parte da mãe (como chutes, mordidas, espancamentos) mostraram ter 6,5% mais chances de apresentar os sintomas da doença. Além disso, filhos de pais separados teriam 73% mais possibilidades de desenvolver o problema.
O avanço do transtorno entre os mais jovens é um fenômeno que não se restringe ao universo estudado pelos pesquisadores da Fiocruz. Profissionais que atuam há vários anos na Divisão de Saúde Mental da Prefeitura de Bauru - como a gerente do Centro de Apoio Psicossocial Infantil (Caps-i, voltado ao atendimento de indivíduos com idades entre 3 e 20 anos), Ivete Maria Pícaro, e a psicóloga da unidade Valéria Gimenes - garantem que tem aumentado na cidade (e de maneira preocupante) o número de casos de depressão entre crianças e adolescentes.
“Nossa demanda vem crescendo a cada ano que passa. Hoje, é mais comum vermos crianças com sofrimento, ansiedade, estresse do que antigamente”, garante Valéria. Todos os meses, em média, o Caps-i atende a 70 pacientes, em média, com idades entre 13 e 20 anos, a maior parte deles portadores de distúrbios mentais graves como depressão com sintomas psicóticos ou transtorno bipolar.
Entre agosto de 2006 e meados do ano passado, 45 pacientes (crianças, inclusive) deram entrada na unidade para receber tratamento após tentarem suicídio. Cerca de um ano atrás - era época de férias escolares -, Fernanda, então com 14 anos, passou a perceber os primeiros sintomas do problema que quase destruiu sua vida.
“Comecei a sentir uma tristeza muito grande. Eu não queria saber de fazer mais nada. Só tinha vontade de ficar chorando pelos cantos”, conta ela, que mora em Bauru e estuda em um colégio particular.
Tímida, Fernanda costuma falar baixo, a ponto de seu interlocutor ter certa dificuldade para entender o que ela diz. Durante a entrevista, ela evitou me encarar e só sorriu uma única vez - por ironia, justo quando teve de comentar a respeito de uma das vezes em que tentou se matar.
“Alguma vez, você já pensou em fazer algo contra a sua própria vida?”, questiono.
“Sim, várias vezes.”
“O que você sentia, naquelas ocasiões?”
“Eu pensava que a vida não tinha sentido e que seria melhor morrer.”
“Mas chegou a fazer algo contra sua vida?”
“Sim, tomei um montão de remédios de uma só vez.”
“Que tipo de remédios?”
“Sei lá! Eram tantos que nem dava para saber (risos).”
Tempos atrás, a menina quase não ria. “Eu não tinha amigos e não falava com ninguém na escola. Às vezes, minha mãe chegava e tentava conversar comigo, mas eu não queria nem saber de olhar para a cara dela”, afirma Fernanda, que faz tratamento há cerca de 11 meses e hoje já demonstra mais facilidade para lidar com o problema.
“No período em que você esteve doente, seus pais te deram o apoio necessário?”, pergunto, por fim.
“Não... Minha mãe e meu pai trabalhavam fora, e eu precisava ficar sozinha em casa o dia todo”. Daqui alguns anos, Fernanda se imagina fazendo faculdade, com um carro próprio na garagem e levando uma vida feliz (pelo menos em sua concepção de mundo).
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Inconveniente
Bruno tem 15 anos, mora em Bauru e vem se submetendo a tratamento psiquiátrico há cerca de seis meses. Ele é hiperativo, ou seja (nas próprias palavras do garoto): “Falo demais, a ponto de as pessoas se irritarem e saírem de perto de mim.”
Ele decidiu procurar tratamento porque não era capaz de lidar sozinho com o transtorno. “Por mais que me esforçasse, não conseguia me controlar”, conta Bruno, que atualmente freqüenta sessões de psicoterapia e faz uso de calmantes.
Certa vez, no cinema, Bruno passou por uma situação para lá de constrangedora. “Fui ver King Kong (remake do filme de 1933, feito pelo australiano Peter Jackson) com meu primo, só que não conseguia me concentrar na história. Eu sentia uma espécie de cansaço dentro de mim e começava a falar sem parar. Quando o filme acabou e as luzes se acenderam, meu primo me olhava cheio de raiva, como se quisesse me dizer: ‘Lembre-me de nunca mais te convidar para vir ao cinema’”, conta Bruno, que, graças ao tratamento, já é capaz de controlar seus impulsos.